Lewis

C. S. Lewis

JOSÉ LUIS DEL BARCO na apresentação de O Grande Divórcio

Lewis foi, antes de tudo, um professor prestigioso que lecionou nas centenárias aulas de Cambridge, um especialista sério em literatura medieval e renascentista, um polígrafo fecundo, um escritor infantil de alma grande, um fabulador soberbo que não recuou diante da ficção científica e um biógrafo sincero — mas foi também, e sobretudo, um Quixote da luz.

A confusão é a falta de clareza — equívoco que borra os perfis, névoa intelectual fina que dilui os limites, estado em que se misturam as coisas sem acertar em colocar cada uma em seu lugar.

Lewis dirige seu engenho contra o programa iluminista de confusão perniciosa, citando o próprio Blake: “A tentativa está baseada na crença de que a realidade nunca nos depara uma alternativa totalmente inevitável; de que, com habilidade, paciência e tempo suficientes, encontraremos a forma de abraçar os dois extremos da alternativa; de que o simples progresso, ou o arranjo, ou a ingenuidade converterá de algum modo o mal em bem.”

A modernidade aduba o solo sobre o qual crescem os mares de confusões — e O grande divórcio é o julgamento incisivo, perspicaz, mordaz e agudo dessa época imprecisa.

O inventor e paladino da ideia de autonomia foi Kant, para quem a vontade é uma causa espontânea que se põe em marcha sozinha, sem mediação da inteligência, e coincide com a razão prática — o que a torna “autossuficiente do ponto de vista normativo.”

“Povo cinzento” é a bela metáfora para o turvo e confuso — a existência cinzenta, a vida incolor e o mundo indiferente quando a mente confusa pinta as coisas de um tom pardo que mistura até o bem e o mal.

É necessário ascender à “Planície Luminosa” para fugir do cinzento — na planície elevada banhada de claridade, o homem começa a “nutrir-se do inteligível” e se adiestra em contemplar com desinteresse a realidade das coisas.

Nada disso é possível sem o auxílio da graça, representada por Lewis com a surpreendente imagem de um ônibus voador — oferta franca e dom imerecido que Deus faz aos homens, cabendo a cada um aceitar a dádiva e subir ao ônibus ou manter-se impassível e vê-lo passar.