Safranski dedica uma análise especial a “A Princesa Brambilla”, considerada por Heine e
Baudelaire a obra mais genial de Hoffmann. Neste “capriccio”, a fantasia e a realidade se misturam sob a luz da “duplicidade de tudo o que é”. Durante o carnaval romano, os dois amantes, Giglio e Giacinta, separam-se porque cada um busca a imagem idealizada que tem do outro. Através de uma série de mal-entendidos e metamorfoses encenadas pelo charlatão Celionati, eles aprendem a rir de si mesmos e da distância entre o sonho e a realidade. O riso os liberta da opressão de uma identidade única e os reconcilia. Safranski explica que Hoffmann define o humor como “uma força de pensamento maravilhosa, oriunda da contemplação da natureza, apta a criar seu próprio sósia irônico, em cujas estranhas palhaçadas ele reconhece as suas e — eu quero manter a palavra ousada — também as palhaçadas de toda a existência aqui, regozijando-se”. A gargalhada final não é niilista, mas uma celebração da vida que aceita sua natureza dupla: a de que somos prisioneiros da natureza e de seus propósitos (Giacinta e Giglio se casarão e terão filhos), e ao mesmo tempo, donos de um mundo interior tão rico que nos eleva infinitamente acima desses mesmos propósitos.