DESMISTIFICAÇÃO DOS TAUMATURGOS E DOS REVOLUCIONÁRIOS
FAIVRE, Antoine (org.). Cahiers de l’Hermétisme – Goethe. Paris: A. Michel, 1980.
Desde 1781, Goethe se mostrava chocado com a duplicidade dos taumaturgos modernos que exploravam a credulidade alheia, e foi a Revolução Francesa que o levou a desmascarar as imposturas na peça Le Grand Cophte, inspirada no caso do colar da Rainha.
Personagens como Cagliostro, que se autoproclamava mago e percorria o mundo em espírito enquanto seu corpo repousava inerte, eram retratados como vis impostores mascarando cupidez sob falsos mistérios.
Wieland, em La Pierre philosophale, e Schiller, em Le Visionnaire, haviam levantado questão semelhante sobre a ingenuidade dos grandes e as fabulações dos taumaturgos que desacreditavam o hermetismo.
Goethe visava não tanto o hermetismo em si, mas seus falsos sacerdotes e todos os sistemas que prometiam saciar a sede de conhecimentos secretos.
Para Goethe, os primeiros anos da Revolução estavam sob o signo da desmistificação, tanto dos taumaturgos quanto dos revolucionários, mas as acusações contra a impostura não implicavam necessariamente renúncia ao esoterismo.
Nas peças contrarrevolucionárias de 1793, Le Citoyen General e Les Revoltes, Goethe atacava os partidários da Revolução como hipócritas que, sob cobertura de ideias generosas, exploravam a credulidade dos vizinhos.
Em 1793, a ordem restabelecida no desfecho dessas peças já era ilusória, pois os problemas evidenciados pela Revolução subsistiam e exigiam soluções reais.
Schiller concluiu em 1794 que era preciso evitar o debate político, propondo fundar uma revista sob a égide das Horas, aberta a todos os domínios do pensamento exceto política e religião.
Essa neutralidade aparente implicava uma tomada de posição: Schiller considerava que os homens ainda não estavam maduros para a liberdade, e que todo aperfeiçoamento político pressupunha previamente o enobrecimento do caráter.
Nas Lettres esthetiques, Schiller explicitava que a educação moral e estética devia preceder as mudanças políticas.
Goethe não seguiu inteiramente Schiller e quis apresentar ao público sua própria visão do problema político por meio dos Entretiens des emigres allemands, confiados à revista de Schiller, nos quais inseriria o Conte.
Ao aludir ao êxodo dos alemães da margem esquerda do Reno, mostrava que a Revolução deixara de ser problema puramente francês e afetara parte da Alemanha.
O debate entre o jovem barão Carlos, partidário das ideias revolucionárias, e o velho conselheiro áulico defensor do antigo regime, terminava em ruptura inevitável, com os emigrantes de volta às estradas.
O fracasso do debate era para Goethe exemplar e sintomático do estado de espírito reinante na Alemanha, que ele descreveu como uma febre da atualidade disseminada inclusive pelos jornais.
Em Le Voyage des fils de Megaprazon, Goethe ilustrava esse mal universal pela oposição entre ilhas e grupos distintos, e pela querela natural que surgia entre os próprios irmãos ao navegar naquelas paragens.
A obsessão pela política levava os contemporâneos a abandonar o cumprimento de seu dever cotidiano, tornando-se escravos de uma ideia: o poeta estigmatizava assim o fanatismo político.
A erupção vulcânica que dividia em três a ilha dos Monarcímanos traduzia poeticamente não tanto a explosão dos três estados na França, mas a cisão provocada pela Revolução na Alemanha, onde a ruptura entre privilégiados e trabalhadores ameaçava cortar ambos do Rei, centro espiritual do país.
A Residência do Rei flutuava à deriva, a Costa dos Nobres ainda era visível ao longe, e a Planície fértil parecia ter desaparecido na tormenta.
O remédio esboçado para os irmãos de Megaprazon antecipava o que seria desenvolvido no Conte: a colaboração de todos numa obra comum, com cada um contribuindo com seu dom particular.
Megaprazon selara sua missiva com seis nós complicados, ensinando a cada filho apenas a desfazer um, para mostrar que somente juntos podiam realizar grandes coisas.
O recurso à maioria em caso de desacordo, ideia de valor democrático limitado ao grupo dos irmãos iguais, não se estendia à sociedade nem ao Estado, naturalmente hierarquizados e regidos por vontade monárquica.
Do conjunto, Goethe extraiu uma tripla conclusão que se aplicaria igualmente ao Conte: a crise devia ser tratada como um flagelo natural, sem busca de suas causas; ela era geral e afetava todos os domínios do espírito, inclusive o literário; e era preciso superar a atualidade e fazer abstração dela.
Ao contrário de Burke, de J. Moser e dos tradicionalistas de Hanôver, Goethe não se voltava elegiaco para o passado, mas queria ocupar-se do presente e do futuro.
Por essas razões optou pela viagem imaginária ou pelo conto simbólico como forma de expressão.