A revelação da natureza de Melusina era estruturalmente inevitável no gênero do conto, mas Goethe a atrasa e a coloca sob o signo do adeus e do elogio da própria raça.
Rémond havia transgredido a interdição, tornando obrigatória a explicação ao leitor sobre o segredo do sábado.
Melusina afirma ter preferido nunca precisar revelar sua natureza, apresentando-se como forçada pelas circunstâncias.
Em vez de um melancólico canto do cisne, Melusina faz o panegírico de sua raça.
Goethe inova em relação à tradição do conto de Melusina, de Jean d'Arras ao romance de colportagem, ao construir uma mitologia original a partir de fontes diversas.
A tradição anterior explicava a metamorfose de Melusina pela punição infligida por sua mãe, conforme o relato encontrado por Geoffroy junto ao túmulo do rei Helmas.
Goethe se inspira no conto licencioso, mais prolixo sobre o tema, e incorpora elementos de A Maravilhosa História de Siegfried o Cornudo, com o rei Egwald e seus mil anões escravizados por um gigante a serviço de um dragão.
O Livro dos Heróis, citado por Herder, fornece o papel preponderante dos anões na gênese e a origem da nobreza a partir dos gigantes.
Goethe constrói uma cosmogonia burlesca em que os anões são as primeiras criaturas divinas, seguidos de dragões, gigantes e cavaleiros, cada criação corrigindo os excessos da anterior.
Os anões foram punidos por querer dominar o mundo, e Deus criou os dragões para contê-los.
Os dragões, que “cuspiam fogo e cometiam mil maldades”, foram controlados pelos gigantes.
Os gigantes, por sua vez corrompidos, foram sucedidos pelos cavaleiros.
A cosmogonia parodia a teodiceia iluminista e esboça uma filosofia da história em que toda vida carrega o germe de sua degradação.
A gênese aparece como série de retificações, como se Deus pudesse complementar a obra original mas não subtrair nada dela.
O mundo físico e moral degeneram continuamente, como provam as histórias dos gigantes e dos anões.
As correções sucessivas revelam que há sempre, ao menos por um tempo, um remédio para o mal.
A missão da nova Melusina é percorrer o mundo em busca de um homem capaz de infundir vigor novo à dinastia enfraquecida.
O bem e o mal se interpenetram de tal forma que cada um testemunha pelo outro, e a pequenez física dos anões comprova simultaneamente a degeneração e a antiguidade da nobreza.
A primogenitura dos anões tem aspecto negativo, pois a raça encolhia proporcionalmente à sua antiguidade.
A pequena estatura da família real atesta, inversamente, a ancianidade de sua nobreza.
A cosmogonia serve a Goethe para lançar farpas aos defensores intransigentes da pureza da antiga nobreza, que triunfavam com a Restauração após terem visto seus pergaminhos ameaçados pela Revolução.
A pureza de raça é associada à degenerescência, como contraponto irônico ao orgulho genealógico.
Os contemporâneos podiam ler na união do homem robusto com a princesa uma alusão ao casamento de Napoleão com Maria Luísa, filha do imperador da Áustria, que havia suscitado protestos entre os tradicionalistas.
Goethe teria rejeitado tais leituras alegóricas como passatempos que não esgotam o simbolismo do conto.
O relato ecoa também as denúncias do relaxamento dos costumes e do triunfo do materialismo burguês.
As armas mágicas dos anões das épocas heroicas foram substituídas pela busca do luxo e do conforto, exemplificados pelo cofre e pelo salão principesco.
Melusina não narra com ingenuidade, mas persegue um objetivo secreto por meio de uma retórica diplomática que inverte a importância relativa dos dados históricos.
O herói quer saber por que devem se separar, mas Melusina responde contando a história de sua família desde a criação.
Cada parte do relato segue o mesmo esquema dualista: longa apologia seguida de menção breve à tara ou ao remédio.
Melusina transforma a confissão de experiências anteriores em elogio ao herói, apresentando-o como o único digno da missão.
Há um descompasso entre a missão moral proclamada e as verdadeiras intenções de Melusina, confirmado pela retórica estratégica.
O relato mítico lança nova luz sobre a primeira parte do conto ao revelar a estratégia de Melusina, que o Barbeiro, por ingenuidade, jamais havia percebido.
O Barbeiro narrava os fatos em sua sequência aparente, sem suspeitar que a aparência ocultava a verdade essencial.
O estilo ágil do Barbeiro tornava fácil esquecer o retrato incompleto que ele fazia de Melusina.
Elementos capazes de despertar a atenção do leitor passavam despercebidos porque o narrador se abstinha de qualquer comentário moral.
Goethe ancora a ação na realidade contemporânea ao invés de situá-la em tempo e lugar utópicos, inspirando-se na figura da “Louca em Peregrinação” da novela francesa.
Melusina viaja sozinha, desrespeitando as convenções sociais e morais de sua época, o que se justifica por sua missão.
O comportamento provocador parece intencional e parte de seu estratagema para atrair homens adequados.
A lógica do mito exige que Melusina volte os olhos para a parte menos nobre da população, o povo, que conserva melhor o vigor original.
Melusina seduz também pelo maravilhoso, introduzido progressivamente para habituar o herói a fenômenos estranhos sem provocar estranhamento imediato.
A chave que abria e fechava todas as portas, as portas que se abriam sozinhas e a bolsa inesgotável constituem etapas dessa iniciação gradual.
O herói, acostumado a trapacear com a realidade, assimila facilmente a magia por encontrar nela a mesma função de melhorar sua vida sem esforço.
O maravilhoso não se opõe à realidade, mas oferece meios de transfigurá-la, opondo-se contudo à moral ao favorecer os defeitos do herói.
A bolsa mágica, o bálsamo curativo e a proteção das consequências dos próprios atos alimentam a irresponsabilidade do herói.
O dinheiro o conduz às armadilhas do jogo, do vinho e das mulheres, contra as quais Melusina o havia alertado, como se o aviso fosse parte do próprio estratagema.
O herói acredita dominar a vida enquanto se torna cada vez mais dependente de Melusina, que brinca com ele como o gato com o rato.
Toda a atitude de Melusina em relação ao companheiro decorre do estratagema de criar alternância entre proximidade e inacessibilidade, à maneira das grandes cortesãs da literatura.
A abolição da diferença social pelo convite ao jantar e pelo gesto de sentar-se à mesa em frente ao herói provoca quase fatalmente a declaração do dia seguinte.
O beijo concedido como penhor cria a ilusão de posse total, e os fracassos sucessivos, em vez de separar os dois viajantes, os aproximam.
Melusina concede seus favores somente quando o herói já está suficientemente subjugado, contradizendo abertamente o discurso moral anterior.
O objetivo de Melusina não é reformar o vagabundo, mas torná-lo dependente o bastante para aceitá-la com sua verdadeira natureza, em busca não de uma aventura passageira, mas de um remédio duradouro para a decadência de sua raça.