Johann Wolfgang von Gœthe. Le serpent vert. CONTE SYMBOLIQUE. Traduit et commenté par Oswald Wirth.
1. Cabana do Barqueiro.
2. Local de passagem, localização da futura ponte.
3. Margem rochosa, habitat da Serpente.
4. Montanha que contém o Santuário.
5. Casa do Velho da Lâmpada.
5 a 2. Trajeto da Velha, sobre o qual incide a sombra do Gigante.
6. Passarela formada ao meio-dia pela Serpente.
7. Bosques da bela Lília.
8. Lago atravessado pelo Velho da Lâmpada.
Para a maioria dos intérpretes do conto de Goethe, o Rio nada mais é do que o Reno, que separa duas civilizações. Lília representa a idealidade francesa, flor de beleza, sugestiva de formas harmoniosas, mas incapaz de produzir algo substancial e nutritivo. O contato de Lília é mortal: a guilhotina havia, de fato, selado o destino dos idealistas franceses. Todavia, Lília galvaniza os seres petrificados, conforme as forças armadas francesas forneciam a prova. No gentil canário que diverte Lília, pretendeu-se enxergar as belas-letras, mortas em sua forma amável pela aspereza da literatura revolucionária, simbolizada pelo Gavião. Mensageiro das ideias novas, esse pássaro, tingido de púrpura pelos últimos raios do sol poente, guia a marcha do Velho da Lâmpada e permite que ele chegue a tempo para realizar um salvamento no momento crítico. É o gavião que vigiará o romper do dia para despertar as três dormentes, refratando sobre elas a luz solar. Ora, as três belas seguidoras de Lília teriam os nomes de Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Na margem oposta, a da experiência e do positivismo prático, habita um estranho casal: o Velho da Lâmpada e sua esposa. Esta, uma boa pessoa muito preocupada com as aparências, mostra-se acessível à lisonja e torna-se joguete dos Fogos-Fátuos. Essas chamas leves e móveis representam a filosofia raciocinante do século XVIII. Elas são hábeis em lamber o ouro superficial, para depois espalhá-lo sem discernimento, sob o risco de agitar as águas do Rio ou de matar o cão Pug, alma vulgar, incapaz de assimilar as verdades emancipadoras.
O Velho é um sábio instruído em todas as coisas, especialmente no que tange ao passado. É ele quem, intervindo na hora oportuna, dirigirá tudo em vista da realização do Ideal e da felicidade universal.
Entretanto, vemo-nos arrastados cada vez mais para longe de uma interpretação extraída dos eventos do final do século XVIII. Goethe era forçosamente assombrado pelas ideias de sua época, de onde provêm as alusões revolucionárias que tingem o simbolismo de um conto composto durante a Revolução. Isso representa, contudo, apenas o aspecto acidental da composição. Por mais sedutora que seja inicialmente, a exegese política não conduz muito longe. Quando se pretende aprofundá-la, logo se incorre em incoerência.
Esqueçamos, portanto, o Reno e a França. Esqueçamos o Império Germânico desmoronado na pessoa do rei compósito e consideremos as questões sob um ponto de vista muito mais geral.
No largo Rio, cheio pelas chuvas recentes, vejamos o próprio curso da vida, a atualidade em processo de escoamento, em oposição às duas margens imóveis, pertencentes uma ao passado conservador daquilo que foi, e a outra ao futuro em gestação do que ainda não existe. No meio, contida entre as escarpas que a dominam, estende-se a existência cotidiana, de curso regular e prosaico, mas que comporta seus remoinhos e turbilhões. O indivíduo satisfeito em deixar-se viver nada nessas águas tumultuosas e pouco límpidas. Ele se adapta aos costumes, às ideias recebidas e aos preconceitos, evitando singularizar-se ou insurgir-se contra a moda e o gosto do dia. Agir como todos os demais é a grande regra da sabedoria vulgar. Se a sociedade humana fosse perfeita, tal regra seria inclusive absoluta.
Mas, infelizmente, jamais o presente, o século, realizou o ideal. Constrangidos a reconhecer as imperfeições da realidade prática em meio à qual viviam, os homens sempre situaram sua idade de ouro no passado ou no futuro, portanto, em uma das margens do grande Rio da vida atuante.
Essa vida é feita de lutas, de competições, de ondas que se chocam, se pressionam e se inflam, parecendo revoltar-se por vezes contra si mesmas, mas empurrando-se irresistivelmente umas às outras.
O Rio fluirá sempre, apressando-se em direção ao Oceano, com águas sucedendo águas, em meio a margens imóveis e indiferentes? Em outros termos, as necessidades da vida prática determinarão sozinhas os destinos humanos, independentemente de fatores extraídos da experiência do passado ou das aspirações do futuro?
Goethe vislumbra a salvação na construção de uma ponte, combinada ao transporte de um santuário subterrâneo que, passando sob o Rio, surge à luz do dia no local da cabana do Barqueiro. Isso demonstra o cumprimento da Grande Obra no rejuvenescimento das mais antigas tradições. As ideias novas, por mais sedutoras que sejam, permanecerão marcadas pela esterilidade, como as árvores soberbas do jardim de Lília, enquanto o Homem da Lâmpada, o iniciado instruído nas coisas ocultas, não houver conjurado o mau destino.
A vida humana coletiva, aliás, nada possui de uniforme em seu escoamento. A corrente do Rio simbólico é mais ou menos rápida, e o nível mais ou menos elevado, conforme a abundância das águas. Estas caem do céu e a ele retornam ao evaporarem-se; uma circulação perpétua pela qual se afirma a Unidade da Vida, apesar da infinita multiplicidade de suas manifestações.
Se ignoramos a fonte do Rio, bem como sua foz, sabemos ao menos que sua largura é limitada, ao passo que, partindo das duas margens, a profundidade das terras é sem limites concebíveis: trata-se, por um lado, do recuo indefinido em direção ao passado e, por outro, do campo eternamente aberto ao futuro.
As indicações gerais precedentes permitirão agora revisar cada um dos personagens imaginados por Goethe e precisar sua significação simbólica.