CONTO – MAGISTÉRIO REALIZADO

Johann Wolfgang von Gœthe. Le serpent vert. CONTE SYMBOLIQUE. Traduit et commenté par Oswald Wirth.

Um novo dia desponta. As duas margens do Rio estão conectadas por uma ampla ponte, de colunatas espaçosas. Honra é prestada à Serpente benfeitora, que se sacrificou em benefício de uma renovação geral da qual não deve desfrutar. A Velha, que se banhou no Rio, retorna rejuvenescida, ainda mais sedutora que as três Graças, seguidoras de Lília. Ela personifica o senso prático reconduzido a si mesmo, pelo fato de a imaginação ter sido lavada de todos os temores vãos, da estagnação da rotina, dos preconceitos e das superstições. Por meio dessa depuração, a boa dona de casa, que coordena as ideias, tornou-se a Alma razoável, feliz por renovar seu matrimônio com o Espírito puro.

A despeito de todos os progressos, a ignorância, contudo, subsistirá. Gigante estúpida, ela produzirá desordens enquanto não for imobilizada. É necessário que os retardatários da evolução intelectual sejam fixados ao solo diante da entrada do grande Templo humanitário. Profanos, servirão para marcar as etapas da marcha do sol. Espécimes de épocas desaparecidas, permitirão medir o terreno progressivamente conquistado pela luz sobre as trevas.

Exceto pelos enfermos da inteligência, a quem o aspecto do Santuário petrifica, a multidão penetra livremente no Templo, onde se deslumbra com a claridade projetada sobre o grupo real, graças ao espelho de Lília, que o Gavião elevou aos ares a fim de refletir, no momento propício, a luz solar sobre os personagens dignos da veneração do povo. A crítica racionalista parece aqui ter se convertido ao respeito, sem dúvida após haver reconhecido a necessidade de dar crédito aos poderes estabelecidos. Não se cogita, aliás, de recriminações contra o regime deposto, pois o passado beneficia-se da indulgência dos homens esclarecidos. O que ele possuía de bom foi, de resto, retido pelos Fogos-Fátuos que, invisíveis, semeiam seu ouro em meio à multidão. Esta se acotovela para recolher o que cai ou o que dá a ilusão de cair, pois sempre haverá espíritos que preferirão o passado ao presente, sob o risco de tomar miragens retrospectivas pela realidade. Mas a marcha geral das coisas arrasta, finalmente, a cada um; assim, a circulação permanece intensa sobre a ponte e o afluxo junto ao Santuário não sofre qualquer redução.