Johann Wolfgang von Gœthe. Le serpent vert. CONTE SYMBOLIQUE. Traduit et commenté par Oswald Wirth.
Assim que sua Lâmpada maravilhosa centelha, o Velho, que habita longe do mundo, compreende que um apelo lhe foi endereçado. Ele sai então de sua morada e observa o céu para ali descobrir o signo revelador de sua orientação; em seguida, dirige-se ao local onde é esperado. A distância parece não existir para ele, assim como as leis da gravidade; por isso, desliza sobre a superfície da água como se esta estivesse congelada. Nada poderia indicar mais nitidamente a natureza espiritual do misterioso Iniciado da Lâmpada. Não se trata de um homem no sentido ordinário da palavra, mas sim do homem transcendente da Cabala. Em um impulso do coração, Lília o chamará de Santo Pai, porque reconhecerá nele o Pai Celeste, não precisamente o princípio criador dos teólogos, mas antes a superconsciência, cujo domínio é ilimitado em relação à consciência atuante (o Príncipe) que, dependente do organismo, está encerrada na esfera descrita pelo estreito raio de nossas constatações objetivas.
Em caso de angústia, por efeito do desvanecimento do princípio consciente proposto ao governo da personalidade (morte do Príncipe), a alma espiritual (Lília) e a vitalidade ou instinto de conservação (Serpente Verde) atraem desesperadamente para si a entidade celeste que se vincula à individualidade encarnada. Formulada ou não, a prece solicita então o nosso Pai que está nos céus, ou seja, o Velho da Lâmpada, o qual, em sua espiritualidade, é particular a cada indivíduo, embora sendo comum a todos os seres.
O princípio invocado não pretende qualquer onipotência. Ele se expressa como o ritual maçônico no momento em que se trata de reerguer Hiram: “Não vos lembrais de que somente a união faz a força e que, sem o auxílio dos outros, nada podemos?” Assumindo a direção dos trabalhos, o Velho limita-se, em seguida, a distribuir os papéis para que cada um cumpra o seu com zelo e abnegação.
Ao manter seu círculo fechado, a Serpente atua sobre a vitalidade, que ela retém como que fascinada, reduzida ao estado estático. A luz da Lâmpada iniciática preservará da decomposição tanto o cadáver do Príncipe quanto o do Canário. O que é iluminado pela compreensão permanece, de fato, unido sinteticamente.
Quando chega a hora, um cortejo luminoso se forma e se transporta para a margem oposta do Rio, graças à Serpente que atua como ponte. Abandonando o domínio do sonho estéril e das aspirações irrealizáveis, é-nos necessário alcançar a terra do passado, onde subsistem, sepultados nas profundezas, os vestígios de potências desaparecidas. Em vez de perseguir quimeras sem vínculos com o que já viveu, dediquemo-nos a renovar instituições que deram provas de si e que são suscetíveis de reviver.
Se a Serpente simboliza a vida iniciática, tal como se mantém graças às associações de iniciados que se sucedem, deve-se admitir que a iniciativa de um estudo aprofundado do passado, visando descobrir nele os elementos da construção do futuro, será tomada pela Maçonaria. Não é ela que remonta às próprias fontes do pensamento humano e se esforça por modernizar os mistérios da antiguidade? Todo o movimento de regeneração simbolista não seria essa ponte iluminadora que o velho Barqueiro, do fundo de sua cabana sacerdotal, contempla com certo estupor?
Esse papel de ponte convém tão bem à Serpente que ela não hesita em se sacrificar voluntariamente enquanto animal. Lília toca-a com a mão esquerda (negativa) e subtrai-lhe toda a vitalidade, que transmite com a mão direita (positiva) ao seu noivo. Enquanto aguarda o retorno à plena posse de suas faculdades mentais, o Príncipe revive assim fisiologicamente, ao passo que a Serpente se decompõe em pedras preciosas fosforescentes que, por recomendação expressa dela, são todas, sem qualquer exceção, lançadas ao Rio.
Deve-se entender por isso que as corporações iniciáticas renunciarão à sua existência quando os Iniciados não estiverem mais obrigados ao segredo? No dia em que os povos tomarem consciência de si mesmos, à semelhança do Príncipe que, sem compreender ainda, levanta-se e pode caminhar, a velha Serpente estará no fim de sua tarefa; seus elementos constitutivos, portanto os iniciados, não estarão mais obrigados a permanecer associados. Eles poderão manter-se agrupados transitoriamente, a exemplo das pedras que descrevem na erva seu círculo luminoso; mas não tardarão a ser dispersos nas ondas da grande corrente da vida geral. Contudo, no fundo do Rio, as pedras luminosas se aglomerarão em pilares vivos de uma ponte permanente que se construirá e se manterá por si mesma, como um ser vivo.
Surgida das águas, cujo fluxo não impedirá, essa construção unirá o que estava separado. Caberá, portanto, sempre aos Iniciados aproximar os homens e facilitar os intercâmbios, remediando as divisões e dissipando os mal-entendidos.
Mas a Grande Obra não está concluída apenas pelo fato da revivificação fisiológica do Príncipe, em favor da qual a Serpente se sacrificou. Embora de pé, o povo que ainda não possui plena consciência de seus direitos e de seus deveres não poderia ser efetivamente soberano. É necessário que, na pessoa do Príncipe, ele conquiste a espada, o cetro e a coroa de carvalho. Para esse fim, é indispensável obter acesso junto aos Reis do Santuário interior da montanha.
Para dirigir-se a eles, o Velho da Lâmpada, que antes permanecera na retaguarda, abre a marcha, que é encerrada modestamente pelos Fogos-Fátuos. A ordem inversa das duas procissões sucessivas justifica-se pois, quando a Serpente (fluido ou instinto vital) dá o impulso inicial, atrai imediatamente em seu rastro os Fogos-Fátuos (fantasia raciocinante), depois a Velha (credulidade imaginativa), transportando em seu cesto extensível os cadáveres do Príncipe e do Canário. Lília (idealidade, sentimento), com o Pug (ritos consagrados, conveniências), precedem então o Velho (espírito, superconsciência). Mas uma iniciativa puramente espiritual, emanando de nossa personalidade transcendente (Velho), arrasta sucessivamente a consciência ainda mal despertada (Príncipe), a sentimentalidade (Lília), a Velha sempre inquieta (imaginação, senso prático) e, somente em último lugar, as faculdades raciocinantes (Fogos-Fátuos).
São estas faculdades, entretanto, que forçarão a entrada do Santuário, cuja porta, sem elas, permaneceria para sempre trancada. As dissertações eruditas, mesmo quando lhes falta profundidade filosófica, não nos permitem penetrar mistérios que nos eram ocultados?
A ciência superficial e a loquacidade dos Fogos-Fátuos repugnam à sabedoria sólida do Rei de Ouro, que afasta de si essas chamas excessivamente leves. O Rei de Prata, que reina sobre as aparências, sobre a forma independentemente do fundo, compraz-se com as carícias dos Fogos-Fátuos, mas, não podendo nutri-los com sua substância, remete-os ao Rei compósito, de quem eles assimilarão insensivelmente todo o ouro, distribuído em sua substância em veios irregulares. Assim se preparará um desmoronamento pelo qual ninguém se sentirá tentado a entristecer-se.
Mas o Santuário pôs-se em movimento. Passando sob o Rio, surgiu da terra no local da pobre cabana do velho navegante. Transfigurado tanto quanto sua morada, este último torna-se, na nova ordem das coisas, um ministro apreciado do Soberano. Com o Velho da Lâmpada, ele ajudará o Príncipe a governar com sabedoria, levando em conta todas as contingências e não negligenciando nenhum dos meios que se oferecem à inteligência para influir sobre as massas humanas (Arte sacerdotal).
Para reinar, o herdeiro do trono deve ter recolhido a sucessão intelectual e moral de seus antepassados. A espada, que lhe lega o Rei de Bronze, confere-lhe a decisão enérgica, que poderia degenerar em tirania sem o cetro outorgado pelo Rei de Prata, inimigo de toda violência. Dirigir com doçura, conduzindo à compreensão, vale mais, de fato, do que um comando brutal. Mas, para exercer a autoridade suprema, o mais importante é ter consciência do que está acima de si, daí o efeito mágico da palavra do Rei de Ouro: “Erkenne das Höchste!”
Coroado de carvalho (vigor intelectual), o Príncipe compreende; o Espírito universal repercute nele; ele reconhece sua noiva, de quem nada mais o separa.