Johann Wolfgang von Gœthe. Le serpent vert. CONTE SYMBOLIQUE. Traduit et commenté par Oswald Wirth.
Duas aves intervêm no conto de Goethe: a primeira acompanha o canto de Lília por meio de suas tocantes modulações; trata-se apenas de um humilde pequeno Canário treinado para pousar sobre a harpa de sua senhora, sem jamais tocá-la, visto que o contato com ela produz a morte. A segunda é um abutre ou gavião que, fendendo subitamente o ar acima do minúsculo cantor, sem intenção de atingi-lo, não deixa de ser a causa de uma catástrofe. Aterrorizado, o canário refugia-se contra o seio de Lília e morre instantaneamente.
Há uma oposição manifesta entre essas duas aves: uma, tímida, afetuosa e sentimental, vincula-se à jovem infeliz que personifica as aspirações mais elevadas da alma; a outra, feroz, audaz e cruel, torna-se a companheira de infortúnio do Príncipe, desesperado por não poder realizar o ideal que concebe.
Se o leitor permitir reportar-se ao que foi dito anteriormente sobre um terceiro animal, o Pug, sentirá menos dificuldade em discernir o alcance simbólico do Canário e do Gavião.
O fiel guardião do alojamento da Velha pareceu-nos corresponder às práticas cultuais, portanto à piedade material, que cumpre os ritos por rotina, sem se preocupar com sua significação. O ouro dos Fogos-Fátuos, que ilumina interiormente, mata o honesto fetiche instintivo, o qual o Velho da Lâmpada reabilita, não o fazendo reviver, mas fixando-o por meio da petrificação translúcida de seu organismo. Vale dizer que o sábio nada despreza, porque sabe tudo compreender. Quando as crenças estão mortas, ele se interessa pelas superstições, que a Beleza, para seu agrado particular, poderá galvanizar comunicando-lhes uma vida sem calor. O horrendo cão, revivificado por Lília, indignará o Príncipe e provocará a catástrofe temida, indispensável à redenção geral.
Metamorfoseado em ônix e, em seguida, reanimado pelo contato de Lília, o Pug esforça-se para substituir junto a ela o gentil pequeno Canário que se associava ao seu canto. Mas as cabriolas do cão são uma distração apenas para os olhos: ele se agita de modo muito prazenteiro, porém permanece gélido. O pobre Canário, por sua vez, vibrava; suas modulações eram quentes e atingiam o coração. Representava, junto à Beleza pura, o senso artístico, o abandono da alma que se torna sensível à percepção do Belo. Sem dúvida, as obras desse entusiasmo ou desse misticismo estético permanecem imperfeitas; mas elas consolam Lília que, por meio delas, sente-se compreendida e busca apenas encorajar um culto sentimental, muito mais elevado que os jogos grosseiros do Pug.
Contudo, uma ave de rapina, de olhar penetrante, assusta o cantor. É a crítica devoradora que enxerga com excessiva clareza e pretende racionalizar as coisas do sentimento. Ela é impiedosa com todo abandono místico e corta brutalmente a corrente que mantém a inspiração. A lógica, que pretende explicar a Arte, é mortal para a manifestação artística, baseada no desenvolvimento da sensibilidade e não no cálculo ou no raciocínio.
Um olhar irado de Lília basta para paralisar, ao menos momentaneamente, o Gavião. Não raciocinamos, de fato, sem nos apoiarmos no sentimento. Entregue estritamente a si mesmo, o raciocínio esteriliza-se. Mas o Espírito consciente, do qual o Príncipe infeliz é a personificação, acolhe a ave maldita, que reencontrará a força de elevar-se nos ares para tingir-se de púrpura com os últimos raios do sol poente. Quando a noite se fizer nas consciências perturbadas, os racionalistas terão, portanto, a missão de encorajar aqueles que, como a Serpente, aguardam a salvação de uma ressurreição das coisas desaparecidas, mas dignas de reviver. O racionalismo será encarregado também de despertar as dormentes, isto é, as três Graças, companheiras de Lília; saberá, enfim, iluminar o Templo no momento propício e revelar às multidões a transfiguração que se operou para o bem delas.
Quando a angústia atinge o ápice, é, afinal, o Gavião que salva a situação. Graças a ele, o Homem da Lâmpada poderá surgir no momento preciso em que sua presença se torna indispensável, pois a ave que o sol desaparecido ainda ilumina terá guiado seus passos. Embora impotentes para promover o remédio diretamente, os racionalistas possuem sua utilidade: assinalam o mal e clamam por socorro.