Tipologia I

FRYE, Northrop. The Great code: the Bible and literature. New York ; London: Harcourt Brace Jovanovich, 1982.

O Novo Testamento não fornece evidências históricas ou biográficas externas para a vida de Jesus, insistindo que a verdade do evangelho é confirmada pelas profecias do Antigo Testamento, e vice-versa, formando um espelho duplo que não reflete o mundo exterior.

A tipologia é uma forma de retórica que se move no tempo, onde o tipo existe no passado e o antítipo no presente ou futuro, baseando-se na suposição de que a história tem significado e aponta para eventos que revelarão esse significado.

A estrutura tipológica da Bíblia torna sua mitologia diacrônica (voltada para o futuro), em contraste com a mitologia sincrônica (cíclica) característica da maioria das religiões pagãs.

A tipologia não é alegoria, pois a alegoria encontra seu “verdadeiro” significado em uma tradução conceitual, enquanto a Bíblia lida com pessoas e eventos reais, ainda que sua abordagem à história seja oblíqua.

O Velho Testamento está preocupado com a sociedade de Israel, que é o tipo do qual o indivíduo Jesus é o antítipo, ilustrando a relação entre sociedade e indivíduo.

O “sofrimento servo” (Isaías 53) e os salmos confessionais operam no mundo da metáfora real, onde sociedade e indivíduo se interpenetram, expressando a unidade do grupo pela metáfora do indivíduo.

Do ponto de vista da Bíblia, ela fornece os antítipos dos quais os cultos cananeus e pré-bíblicos são tipos, afirmando indicar o que o simbolismo de tais cultos “realmente significa”.

O período do Novo Testamento (primeiro século d.C.), a era da fundação do Império Romano sob Augusto, pode ter um significado simbólico próprio como um tipo gentio para o surgimento do cristianismo.

O “Anticristo”, inimigo de tudo o que Cristo representa, está conectado com os imperadores perseguidores, sendo o “abominação da desolação” (Daniel) e o número 666 em Apocalipse (geralmente considerado como soletrando o nome de Nero).

A vinda de Jesus ao mundo ocorreu num confronto dialético onde a história de repente se expande para mito, indicando uma dimensão além do histórico.

O “complexo social do Anticristo” é encapsulado na palavra “totalitário”, onde o indivíduo é membro de um corpo maior, existindo primariamente como uma função desse corpo.