Mito I

FRYE, Northrop. The Great code: the Bible and literature. New York ; London: Harcourt Brace Jovanovich, 1982.

A organização sequencial das palavras é o aspecto primário que se apresenta no estudo das estruturas verbais.

Nas fases metafórica, metonímica e descritiva da linguagem, as narrativas assumem formas distintas.

Na cultura ocidental, a distinção entre “história” e “estória” reflete a relação com eventos externos ou construídos.

O termo “mito” adquire um sentido secundário e mais restrito relacionado à função social de certas narrativas.

Mitos em sentido secundário e contos populares não possuem diferença estrutural consistente, embora os primeiros tenham qualidades derivadas de sua função social.

A mitologia está inextricavelmente ligada à literatura, sendo impossível para a crítica literária tratá-la como uma contaminação.

O mito é uma forma de pensamento imaginativo e criativo, sendo autônomo, e não um produto de causas determinísticas externas.

A mitologia não melhora com o crescimento da sociedade ou tecnologia, pertencendo às artes, que não são progressivas.

O desenvolvimento da literatura incorpora tanto o conto popular “profano” quanto a lenda, com poetas demonstrando grande respeito pela integridade dos mitos que tratam.

A questão de saber se as narrativas bíblicas são histórias ou ficções não pode ser respondida nos termos de um “ou isto ou aquilo”.

Se algo historicamente verdadeiro está na Bíblia, está lá não por ser historicamente verdadeiro, mas por razões de profundeza ou significância espiritual.

Os Evangelhos não são biografias, mas sim tentativas de mostrar que os eventos da vida de Jesus cumpriram profecias do Antigo Testamento.

A insistência em tratar a Bíblia como história é fútil, pois o elemento histórico acidental não é o que constitui sua essência.

Explicações para eventos bíblicos aparentemente milagrosos, como o sol parando em Josué, são formas de evidência que a própria Bíblia não reconhece.

O literalismo que exige a verdade factual de cada detalhe bíblico, como a história de Jonas e a baleia, é uma forma de populismo cristão anti-intelectual.

Os mitos bíblicos devem ser lidos poeticamente, pois a poesia expressa o universal no evento, ao passo que a história faz afirmações particulares sujeitas a critérios externos de verdade.

Existem dois aspectos do mito: sua estrutura de história (ligada à literatura) e sua função social como conhecimento preocupado (ligada ao pensamento histórico e político).

O mito, ao evitar a história real e seus critérios, liberta o historiador para fazer seu próprio trabalho e “redime” a história, atribuindo-lhe seu lugar real no panorama humano.

A função primária da mitologia é voltar-se para dentro, para as preocupações da sociedade que a possui, cobrindo todas as preocupações essenciais.

O problema fundamental é o senso simultâneo da relevância social e da integridade interna de todos os elementos da cultura humana.