Arquétipos da Literatura

FRYE, Northrop. Fables of identity: studies in poetic mythology. New York London: Harcourt Brace Jovanovich, 1963.

I

Todo corpo organizado de conhecimento pode ser aprendido progressivamente; e a experiência mostra que também há algo de progressivo no aprendizado da literatura.

O estudante de ciência crítica percebe um movimento centrífugo que o afasta da literatura, que está no centro das “humanidades”, entre a história e a filosofia.

A maior parte da área central da crítica é, atualmente, a área do comentário, onde os comentaristas carecem do senso de disciplina científica dos pesquisadores.

O termo “pseudoproposição” pode implicar uma atitude positivista lógica, mas não se deve confundir proposição significativa com factual, nem fragmentar o estudo da literatura com uma dicotomia esquizofrênica.

Um grupo mais sério de críticos defende que o primeiro plano da crítica é o impacto da literatura no leitor, propondo manter o estudo da literatura centrípeto com base na análise estrutural da obra.

O primeiro postulado dessa hipótese é o mesmo de qualquer ciência: o pressuposto da coerência total, que se refere à ciência, não ao seu objeto.

Uma ciência leva tempo para descobrir que é um corpo de conhecimento totalmente inteligível; antes disso, permanece como um embrião dentro de outra disciplina.

Busca-se princípios de classificação entre dois pontos fixos: o esforço preliminar da crítica (análise estrutural) e o pressuposto de que a crítica faz sentido completo.

II

A unidade de uma obra de arte não é produzida apenas pela vontade incondicionada do artista; ela tem forma e, consequentemente, uma causa formal.

O problema da causa formal do poema está profundamente envolvido com a questão dos gêneros, sobre a qual a crítica ainda sabe pouco.

A origem do gênero remete às condições sociais e demandas culturais que o produziram – a causa material da obra de arte.

Há algo faltando: cada poeta tem sua formação peculiar de imagens, mas muitos poetas usam as mesmas imagens, levantando problemas críticos maiores do que os biográficos.

A crítica só pode ser sistemática se houver uma qualidade na literatura que a permita sê-lo; o arquétipo deve ser uma categoria unificadora da crítica e parte de uma forma total.

O movimento indutivo em direção ao arquétipo é um processo de recuar da análise estrutural, como se recua de uma pintura para ver a composição em vez da pincelada.

Em cada estágio de compreensão, depende-se de uma certa organização acadêmica: editor, retórico, filólogo, psicólogo literário, historiador social, filósofo, estudante da história das ideias e, para o arquétipo, um antropólogo literário.

III

Algumas artes se movem no tempo (música), outras são apresentadas no espaço (pintura); o princípio organizador é a recorrência (ritmo temporal, padrão espacial).

O ritmo, ou movimento recorrente, é fundado no ciclo natural, e tudo na natureza análogo a obras de arte (flor, canto de pássaro) cresce de uma sincronização entre um organismo e os ritmos de seu ambiente.

Os padrões de imagens, ou fragmentos de significação, são de origem oracular, derivando do momento epifânico de compreensão instantânea sem referência direta ao tempo.

O mito é o poder informador central que dá significação arquetípica ao ritual e narrativa arquetípica ao oráculo; portanto, o mito é o arquétipo.

A busca do herói também tende a assimilar as estruturas verbais oraculares, consolidando lendas locais em uma mitologia narrativa, que nas religiões superiores se torna o mesmo mito central da busca.

É parte da tarefa do crítico mostrar como todos os gêneros literários derivam do mito da busca, mas essa derivação é lógica dentro da ciência da crítica.

O crítico que estuda os princípios da forma literária tem um interesse diferente do psicólogo (estados mentais) ou do antropólogo (instituições sociais).

A relação da crítica com a religião, quando lidam com os mesmos documentos, é complicada, pois na crítica o divino é sempre tratado como um artefato humano.

Identificou-se o mito central da literatura, em seu aspecto narrativo, com o mito da busca; para vê-lo como padrão de significação, parte-se do funcionamento do subconsciente onde a epifania se origina, ou seja, no sonho.

Conclui-se com uma segunda tabela de conteúdos, estabelecendo o padrão central das visões cômica e trágica, lembrando que o individual e as formas universais de uma imagem são idênticos.

Uma grande variedade de imagens e formas poéticas se encaixa nessa tabela, como “Navegando para Bizâncio”, de Yeats (cidade, árvore, pássaro, comunidade de sábios, giro geométrico, desprendimento do mundo cíclico).