A questão sobre se toda a obra de Eco se baseia em uma única ideia — conforme a convicção do mestre Luigi Pareyson, expressa nas conclusões do colóquio de Cerisy-la-Salle em 1996 — e se constituiria um universo cultural autorreferencial é tratada como dois problemas distintos.
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O tema quase obsessivo de toda a obra é o de como se chega a conhecer o mundo, o que explica a atenção crescente dedicada aos universos narrativos, tomados como substitutos do mundo.
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As “verdades” mundanas — como o fato de a Terra girar em torno do Sol ou de Napoleão ter morrido em 1821 — podem sempre ser postas em dúvida; os universos narrativos, ao contrário, oferecem algo indisputável: Anna Kariênina morreu sob um trem, Pinóquio se tornou um menino de verdade.
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Os universos narrativos prometem uma noção de verdade confortável e segura, ao passo que o mundo não a oferece; somos, porém, levados a interpretar o mundo como se fosse uma grande história, para encontrar nele alguma coerência — coerência sujeita, contudo, a contínua revisão.
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O ensaio de Barranu, mencionado como exemplo, reconstruiu a estrutura subjacente d'O Pêndulo de Foucault, descobrindo exatamente o que Eco tentou fazer: um diagrama estruturado seguido constantemente nos jogos de flashback, inclusive para decidir os tempos verbais a empregar.
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O mundo não é o parâmetro pelo qual se devem julgar os universos narrativos — como pretenderia uma estética banalmente realista —; são os universos narrativos o parâmetro que permite julgar as interpretações do mundo, o que parece, como observado, uma ideia de cunho kantiano.
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Quanto ao universo autorreferencial, remeter um texto a outro é característica de qualquer autor; o que se critica — conforme o ensaio de Mussgnug — é a tendência de críticos literários a ler os romances como consequência ou demonstração das obras teóricas, ou vice-versa, quando os escritos teóricos falam do mundo e do modo como o interpretamos por meio das linguagens, não dos romances.