Jonathan Key, in ROSS, Charlotte; SIBLEY, Rochelle (ORGS.). Illuminating Eco: on the boundaries of interpretation. London: Routledge, Taylor & Francis Group, 2016.
O ensaio humorístico de Eco sobre a escrita de O Nome da Rosa revela uma preocupação genuína com a mensuração do diálogo em relação ao ambiente físico, ignorada pela crítica.
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O comentário aparentemente descartável esconde uma preocupação que percorre toda a ficção de Eco.
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A afirmação específica de que o diálogo foi medido por uma planta baixa do ambiente foi ignorada pelos críticos.
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A preocupação literalista de Eco com o comprimento “real” de uma caminhada é significativa para a ficção.
O comentário de Eco sobre mensurar o diálogo se encaixa em um padrão de descrição de seu processo pessoal de escrita, embora essa informação pareça irrelevante para o leitor.
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Eco descreveu a incorporação de centenas de citações contemporâneas e as pesquisas substanciais para seus romances.
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A demanda por saber a distância exata que os personagens andam é obscura e irrelevante para o leitor típico.
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O comportamento contingente do autor ao construir o texto não pode determinar a resposta do leitor.
O leitor de O Nome da Rosa também tem uma planta diante dos olhos, pois os guardas do romance contêm um mapa da abadia, convidando à abordagem do espaço concreto.
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Os guardas do romance contêm um mapa da abadia sem nome onde quase toda a ação ocorre.
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A inclusão do mapa é um claro convite para que o leitor aborde o romance com a sensação de um espaço concreto.
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No mapa, conversas podem ser medidas pela distância entre as localizações.
O mapa nos guardas do livro afeta imediatamente a experiência do leitor, reforçando os aspectos de história de detetive.
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O mapa e sua legenda são as primeiras coisas encontradas no livro.
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O leitor carrega a sensação de que a localização e o movimento na abadia serão de importância primordial.
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O mapa desafia o leitor a usar o espaço do romance para construir e testar hipóteses de tempo e movimento.
O romance policial é um dos poucos gêneros que se beneficia de um mapa em suas páginas, pois aumenta o “efeito de realidade”.
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Um mapa que opera de acordo com as descrições topográficas persuade o leitor de que o mundo ficcional é constante e concreto.
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O mapa permite especulações baseadas em suposições externas às informações do texto.
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O mapa oferece um reforço ilusório às reivindicações da ficção de representar o mundo como ele é.
O poderoso dispositivo paratextual do mapa em O Nome da Rosa recebeu pouca atenção crítica, ao contrário do prefácio “salão de espelhos”.
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Mesmo a visão geral de Gérard Genette, Paratextos, menciona mapas apenas superficialmente.
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A exclusão do mapa é lamentável, pois eles também aparecem em O Pêndulo de Foucault e A Ilha do Dia Anterior.
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Mapas aparecem em várias formas nos romances de Eco.
Há outro mapa em O Nome da Rosa, possivelmente mais importante, que é a planta da biblioteca revelada por Guilherme de Baskerville, a qual organiza os livros por nomes de partes do mundo.
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Após completas, no quarto dia, Guilherme e Adso descobrem a estrutura secreta da vasta biblioteca.
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Cada uma das 56 salas da biblioteca é marcada com uma letra, formando nomes como ANGLIA, GALLIA, ROMA, LEONES.
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Adso explica que um livro encontrado em “Quarta Acaiae” significava a quarta sala a partir daquela com o inicial A.
O leitor confuso pode recorrer à planta completa da biblioteca para traçar por si mesmo o intrincado sistema de nomes.
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O romance fornece uma planta completa da biblioteca, incluindo as letras-chave.
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O leitor pode romper com o texto e traçar o eficiente entrelaçamento dos nomes.
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É um leitor raro que não aproveita a oportunidade para ver como o esquema funciona.
O leitor busca confirmar se a interpretação de Guilherme e Adso está correta, mas a precisão da descrição textual já garantiria o assentimento, mesmo sem o mapa.
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O investimento textual em explicar o formato da biblioteca tornaria um erro um susto improvável.
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A precisão da descrição de Adso extrairá o assentimento do leitor de que a solução é correta.
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Sem o mapa, o leitor não seria capaz de confirmar cada fato individual.
A inclusão da planta não é apenas vaidade autoral, mas uma necessidade para garantir uma explicação satisfatória do desvendamento do enigma.
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A centralidade do enigma em O Nome da Rosa obriga Eco a garantir uma explicação satisfatória.
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Onde o texto não atinge clareza suficiente, não é autopromoção oferecer uma ilustração.
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A ilustração mostra a organização meticulosa da solução.
A razão mais profunda para a inclusão da planta é que o esquema da biblioteca reproduz o mapa do mundo, significando sua função como um compêndio da sabedoria mundial.
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O leiaute das partes do mundo na planta segue aproximadamente sua localização relativa a Roma.
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Adso nota com espanto que “o plano da biblioteca reproduz o mapa do mundo”.
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Esta mappa mundi arquitetônica significa a biblioteca como um microcosmo do mundo intelectual do século XIV.
A biblioteca como mapa do mundo é uma metonímia para o princípio do romance como um dispositivo para mapear o mundo, um “evento cosmológico”.
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Eco insiste no princípio do romance como um “evento cosmológico”.
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Para contar uma história, é preciso primeiro construir um mundo mobiliado até os mínimos detalhes.
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A representação do mundo na planta da biblioteca deve ser levada a sério, pois o romance pergunta como se cria um mapa cognitivo do mundo.
O mapa da biblioteca não categoriza os livros de forma simplista pelo local de nascimento dos autores, mas sim por juízos de valor, como agrupar obras não cristãs sob o título “LEONES” (livros da falsidade).
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Bíblias e comentários estão na torre leste sob “FONS ADAE” (paraíso terrestre).
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A área sul (LEONES) contém obras não cristãs, pois obras infiéis pertencem juntas.
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Guilherme diz que LEONES contém os livros que os criadores consideravam livros da falsidade.
A obra de Virgílio de Toulouse é agrupada sob HIBERNIA, revelando que os bibliotecários “corrigiram os erros da natureza” ao mapear.
Eco desenterra uma tensão implícita na noção de mapeamento: um romance deve mapear um mundo, mas não pode mapear o mundo diretamente.
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A falta de relação direta é cuidadosamente indicada em O Nome da Rosa.
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A conclusão de Adso introduz o mapa como um terceiro termo entre a biblioteca e o mundo.
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O mapa que Guilherme e Adso encontram é especificamente o mapa-múndi medieval, não um objetivamente “correto”.
A priorização do mapa interpretado sobre qualquer noção de mapa “correto” é destacada no episódio em que Guilherme localiza o cavalo perdido do abade lendo os rastros.
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Guilherme prova sua habilidade de ler a terra localizando o cavalo sem nunca tê-lo visto.
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Ele descreve as características do cavalo não visto assumindo que os monges atribuiriam todas as características de cavalos finos ao montaria favorito.
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Adso comenta que Guilherme sabia ler o grande livro da natureza e também sabia como os monges liam os livros da Escritura.
A preocupação de Guilherme com a maneira como a mente humana “mapeia” o mundo da experiência é central para seu papel como detetive pós-moderno.
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Guilherme interpreta não simplesmente o mundo, mas as interpretações do mundo.
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Quando decifra o mistério da biblioteca, ele delimita a avaliação de Adso, afirmando que só pode interpretar criações da arte.
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Guilherme afirma que não pode interpretar criações da natureza porque não são obra de mentes humanas.
Guilherme declara-se particularmente apto a entender não o território da experiência real, mas as maneiras como essa experiência é interpretada pela mente humana.
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Essa distinção coloca em questão o princípio operacional da ficção de detetive identificado por Michael Holquist.
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O princípio escolástico é “adequatio rei et intellectus”, a adequação da mente às coisas.
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Adso tem a impressão de que Guilherme não se interessava pela verdade, mas se divertia imaginando quantas possibilidades eram possíveis.
Adso faz uso do princípio escolástico, mas liga o “ajuste” das ideias ao jogo, implicando que a relação entre mente e coisas é sempre provisória e mutável.
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Adso liga o “ajuste” das ideias com o jogo.
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Guilherme não estaria manobrando ideia e coisa para um alinhamento perfeito, mas sim ajustando para sua própria diversão.
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O irônico giallo de Eco enfatiza que a relação entre o mapa e o território é sempre provisória e mutável.
O Nome da Rosa, apesar de suas ressalvas, permanece positivo sobre a ambição de criar um mapa significativo e útil da realidade, ao contrário de O Pêndulo de Foucault.
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O Pêndulo de Foucault apresenta uma paisagem intelectual onde o invisível é visível e o óbvio é obscuro.
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A suficiência de especulações históricas marginais no romance excede o que Eco chamaria de “enciclopédia” do leitor médio.
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Eco enfrentou um problema semelhante com O Nome da Rosa, que bombardeava o leitor com debates teológicos.
O Pêndulo de Foucault tenta fornecer um mapa da paisagem intelectual em que se move, ao mesmo tempo que deseja se posicionar em relação a essa paisagem.
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Essa duplicidade inevitável explica por que vários críticos sentiram uma espécie de duplicidade no romance.
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O Pêndulo de Foucault tenta celebrar a farra das conspirações paranoides ao mesmo tempo que a condena.
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Eco não pode confiar na consciência cronológica do leitor como fez em O Nome da Rosa.
Eco adota uma abordagem dupla para comunicar o território intelectual de O Pêndulo de Foucault: muita exposição e dependência de dispositivos paratextuais.
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Ele usa muita exposição, como a descrição da história dos Cavaleiros Templários.
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Ele depende de uma variedade de dispositivos paratextuais, como epígrafes de capítulo.
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As epígrafes servem para assegurar ao leitor que Eco conhece seu material e fornecer um curso intensivo sobre os tipos de pensamento do campo escolhido.
O Pêndulo de Foucault também contém mapas e diagramas, que servem a um propósito diferente, como no Capítulo 83, que traz a epígrafe “Um mapa não é o território”.
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O plano paródico desenvolvido pelos três Editores (Casaubon, Belbo, Diotallevi) está bem avançado.
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Eles integraram o Pêndulo ao jogo, imaginando-o como um ponteiro que indicará um lugar em um mapa.
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O narrador, Casaubon, aponta que não é o Pêndulo que é calibrado de acordo com o mapa, mas o mapa que é calibrado de acordo com o Pêndulo.
Casaubon ilustra seu ponto com três mapas reproduzidos juntos em uma única página, convidando o leitor a vê-los não como tentativas de mapear a realidade, mas como ilustrações da ficcionalidade de todos os mapas.
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As diferenças de projeção e topografia dos mapas são mais significativas do que suas variadas alegações de precisão.
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Cada mapa individual torna-se avaliável não em termos de fidelidade ao território, mas em termos de uma qualidade inteiramente separada.
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A qualidade separada é sua “correção” para revelar um segredo inteiramente imaginário, tornando os mapas objetos puramente estéticos.
Os Editores cruzam um limite ao reordenar o mundo de modo que os mapas sejam separados da necessidade de descrever um território, cometendo um crime de lógica pelo qual Eco garante que sejam punidos.
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O rápido declínio e queda dos Editores confirma a suspeita de que eles cruzaram um limite.
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A violência que eles realizam na relação entre mapas e realidade os coloca fora dos limites.
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A epígrafe de Korzybski – “um mapa não é o território” – é fatalmente ignorada pelos Editores.
Para os Editores, um mapa é precisamente o território, invertendo os termos do princípio da adequação entre mente e coisas.
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Eles inverteram os termos do princípio “adequatio rei et intellectus”.
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O princípio assume que é a mente que deve se ajustar para acomodar os contornos da realidade.
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Para os Editores, agora é a coisa que deve ser ajustada para caber no mapa mental.
O Pêndulo de Foucault junta-se a uma curta lista de ficções que lamentam a substituição da realidade por seus mapas, como a história de Jorge Luis Borges, “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”.
Como Borges e Greene, Eco parece tornar-se preocupado com o medo de que a eficiência elegante e a completeza aparente do mapa se provem sedutoras em comparação com o mundo real.
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O problema, como o próprio
Borges observou, é que esta é a própria matéria da ficção.
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Borges delineia duas abordagens possíveis para o ato da narração: a natural e a mágica.
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Borges conclui que, no romance, a única integridade possível reside na abordagem mágica.
Em A Ilha do Dia Anterior, Eco parece finalmente aceitar a força desconcertante do argumento de Borges, pois Roberto della Griva, isolado em um navio, recua em devaneios que suplantam o mundo material ao seu redor.
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A produção do romance coincide amplamente com a escrita de A Busca da Língua Perfeita, de Eco.
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Vários tópicos do livro de não-ficção emergem no romance, como figuras como Kenelm Digby e Athanasius Kircher.
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Os dois livros compartilham um interesse em soluções “perfeitas” para o problema cratilista da convencionalidade da linguagem.
Os monólogos internos de Roberto, perigosamente autoenganadores, chegam a suplantar o mundo material, levando-o a aceitar que suas narrativas equivalem a mundos.
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Roberto comete o mesmo “pecado” dos Editores em O Pêndulo de Foucault.
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Ele permite que suas fantasias linguísticas determinem seu mundo.
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O romance lida com os mesmos termos de mapa e território das obras anteriores de Eco.
Os títulos dos capítulos de A Ilha do Dia Anteior são todos retirados de livros do século XVII, e Eco interpolou centenas de imagens poéticas contemporâneas no texto.
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Eco descreveu como escreveu centenas de imagens poéticas, sem o nome do autor, em pedaços de papel.
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As imagens entrariam no fluxo criativo no momento certo.
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Ao contrário de O Pêndulo de Foucault, esses elementos parem mais floreios retóricos para reforçar a ilusão de antiguidade.
O ponto de vista narrativo dominante de Roberto faz com que o território (sempre liminar, mal lembrado, imaginado) desapareça cada vez mais, sendo substituído por fantasias voluntariosas.
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O território é substituído pelas fantasias voluntariosas de todos os personagens principais.
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O episódio do cão no porão, baseado na descrição de Sir Kenelm Digby sobre o pó da simpatia, é uma especulação famosa e selvagem.
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Até a visão cética de Roberto sobre o cão é apresentada apenas como outra possibilidade, outro mapa possível dos eventos.
À medida que qualquer senso de chão fixo desaparece do romance, tudo o que resta é o número crescente de especulações infundadas, muitas sobre a busca pelo meridiano de 180°.
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O meridiano, que se tornará a linha internacional de data, é uma fronteira virtual que existe apenas nos mapas.
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A escravização crescente de Roberto à ideia do meridiano como uma fronteira real indica que ele sucumbiu à fantasia cratilista.
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A fantasia cratilista é a de que a descrição pode corresponder exatamente ao objeto, o mapa ao território.
Essa correspondência precisa torna os mapas convencionais redundantes, o que ajuda a explicar por que A Ilha do Dia Anterior, o romance mais explícito sobre mapas, não contém uma única figura ou ilustração.
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A noção do elisão completa do mapa e do território ajuda a explicar a ausência de ilustrações.
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É como se Eco finalmente tivesse aprendido a parar de se preocupar e amar a ficção.
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O romance, como o próprio Roberto, finalmente abandona qualquer preocupação remanescente com a precisão de sua referência à realidade.
O limite cruzado por Roberto não é o mundano da linha de data, mas a fronteira entre a coisa e a ideia, revertendo o princípio escolástico da adequação.
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O delírio final de Roberto reverte os termos do princípio “adequatio rei et intellectus”.
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Sua última auto-ilusão é o consolo paranoico visto com suspeita em O Pêndulo de Foucault.
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A lógica do romance, sua estrutura, seus jogos de linguagem e especulações intermináveis concordam com a reversão de Roberto.
Eco cruza uma fronteira do paternalismo pela retidão lógica dos dois primeiros romances para a autoindulgência lúdica do fabulista, alinhando-se com os mais paranoides fantasistas: os romancistas.
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A Ilha do Dia Anterior é a obra em que Eco finalmente se coloca ao lado daqueles que dizem “only connect”.
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A fronteira é do cuidado paternalista pela retidão lógica para a autoindulgência lúdica.
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Os “high priests of ‘only connect’” são os romancistas.