Labirintos

Rochelle Sibley, in ROSS, Charlotte; SIBLEY, Rochelle (ORGS.). Illuminating Eco: on the boundaries of interpretation. London: Routledge, Taylor & Francis Group, 2016.

O ensaio argumenta que o labirinto da biblioteca da abadia é central em O Nome da Rosa, conectando-se a todas as outras estruturas labirínticas do romance, como as de crença, heresia, intertextualidade e conjectura.

Antes de discutir essas questões, é necessário estar ciente dos três tipos de labirinto que Eco identifica em Semiótica e Filosofia da Linguagem: o clássico, o maneirista e o rizoma.

O rizoma mostra como um signo pode ter muitos significados interconectados e demonstra como todos os signos estão conectados dentro da linguagem, sendo prevalente em O Nome da Rosa.

O mundo medieval retratado em O Nome da Rosa é um mundo dependente de signos, onde grande ênfase é colocada em sua interpretação correta, mas o indivíduo tem que navegar por um labirinto de interpretações possíveis.

O conceito do mundo como texto é um dos temas dominantes do romance, e a sociedade abbatial vê o propósito do homem como aprender a ler esse texto para se aproximar de Deus.

A multiplicidade de signos faz parte da própria estrutura da abadia, pois o uso de estruturas octogonais, heptagonais e pentagonais no Aedificium está de acordo com a linguagem numérica especial da fé cristã.

O único labirinto físico em O Nome da Rosa é o da biblioteca, que é o centro da abadia e do próprio romance, tanto como fonte de todo conhecimento quanto como chave para o mistério dos assassinatos.

A biblioteca é estruturada de modo a ocultar o conhecimento, em vez de permitir sua circulação, mas as tentativas de ocultar o conhecimento são fúteis, pois todos os livros falam de outros livros.

Em cada uma das muitas salas da biblioteca há um pergaminho gravado com um versículo do Apocalipse de São João, cujo texto não conta, mas sim as letras iniciais que formam os nomes de áreas geográficas.

O mapa que Guilherme e Adso fazem do labirinto da biblioteca revela que ela é disposta para imitar um mapa do mundo conhecido, evocando a imagem do mundo como um labirinto.

Para Adso, os livros da biblioteca se tornam sinônimos não apenas do labirinto em si, mas também de sua própria confusão espiritual, e o labirinto físico incorpora todas as estruturas labirínticas da sociedade abbatial.

O labirinto da biblioteca está mais associado à morte do que à vida, e a guarda do labirinto é, de uma forma ou de outra, o motivo por trás de todas as mortes no romance.

Para Eco, a estruturação do conhecimento como um labirinto rizomático significa que qualquer sistema de conhecimento deve ser visto como local e transitório; caso contrário, um viés ideológico será produzido.

O que a destruição da biblioteca demonstra é que o homem não pode mapear os rizomas da fé, do conhecimento e da semiótica, e o mundo é um labirinto, um rizoma incontrolável, onde toda ordem é meramente transitória.

O que fica claro nos esforços de Adso é que o conhecimento contido na biblioteca é agora uma estrutura rizomática, livre de restrições, tendo infinitos significados e estando livre para ser reinterpretado mais uma vez.

O labirinto físico da biblioteca forma o centro não apenas do mistério dos assassinatos, mas também da abadia, e o rizoma do aprendizado que ele contém está ligado a todos os outros labirintos imateriais do romance.

O Nome da Rosa mostra como uma cultura inteira pode ser minada por sua recusa em admitir que os princípios nos quais é fundada não passam de areia movediça.

A única pessoa que consegue aceitar a ideia de que o mundo pode ser sem ordem e sem uma interpretação correta é Adso, que retorna às ruínas da biblioteca da abadia demonstrando disposição para confrontar o caos.

Em meio a toda essa confusão e desordem, o que permanece aparente nessa visão rizomática da realidade é a compreensão que ela permite da posição precária do homem no mundo.