VIDA E MORTE

David Lapoujade. L’Altération des mondes. Versions de Philip K. Dick. Paris: Éditions de Minuit, 2021

O problema geral de Dick — “o que é a realidade?” — está estreitamente correlacionado a outro problema igualmente crucial: “o que está vivo e o que está morto? Como distingui-los?”

Em “Uma Meia Obscura”, o personagem passa por uma morte cerebral, uma morte da sensibilidade que o transforma em puro instrumento de visão — uma câmera sobre tripé.

Mas é o inverso que sobretudo interessa a Dick — todos os casos em que indivíduos organicamente mortos continuam a viver.

A obsessão pela sobrevivência post-mortem é especialmente marcada nos personagens que exercem poder político — como se o poder fosse inseparável de uma fantasia de imortalidade como ideia fixa suprema.

A dissociação tornou-se, nos romances de Dick, antes de tudo uma questão de imagens — de um lado, as imagens do poder; de outro, um poder real, mas sem imagens.

O anti-herói dickiano por excelência é Richard Nixon — “uma figura de Cristo invertido, absorvendo sobre si todo o negativo, absorvendo toda a paranóia do país, com ele também seus dois corpos distintos.”

“Ubik” coloca da maneira mais clara o que implica esse desejo de sobrevivência através do personagem de Jory — o jovem vampiro que “come” o que resta de vida nos outros semi-vivos para prolongar sua existência.