MUNDOS

David Lapoujade. L’Altération des mondes. Versions de Philip K. Dick. Paris: Éditions de Minuit, 2021

Os delírios de Dom Quixote transformam a realidade em signo — os seres visíveis que povoam o mundo real são metamorfoseados pelos signos legíveis do romance de cavalaria e submetidos a uma ordem imaginária.

Na segunda parte do romance, a situação se complica porque os personagens que encontram já leram o relato de suas primeiras aventuras — podem portanto manipular a realidade em consequência, confortar os delírios do cavaleiro e satisfazer as ambições do escudeiro.

O mundo da representação se desmorona quando o narrador redescobre fenômenos que nem as leis desse mundo nem o jogo das falsas aparências podem explicar — fenômenos “objetivamente” inexplicáveis, como nos romances góticos ou nos relatos fantásticos.

Esse duplo versante se reencontra em Dick — de um lado, mundos “objetivamente” delirantes graças às possibilidades da ficção científica de criar mundos insólitos; de outro, como muitas narrativas são conduzidas sob o ponto de vista de paranóicos, psicóticos, andróides ou toxicômanos, “a distinção entre mundo 'objetivo' e mundo 'subjetivo' não pode mais ser mantida.”

O método narrativo de Dick tem um único objetivo: encenar uma guerra dos mundos concebida como guerra dos psiquismos — os psiquismos lutam uns contra os outros para tentar impor ou preservar a “realidade” de seu mundo.

“O Olho no Céu” ilustra com grande força cômica como o mundo passa por transformações sucessivas em função dos valores morais, das convicções políticas e das crenças religiosas de cada um dos personagens — e a prova de que se trata de um confronto antes de tudo mental é que todos os protagonistas estão em coma desde o início do romance.

Inversamente, se existe uma realidade comum, ela se compõe de todas essas visões individuais aterrorizantes que se podem encontrar a qualquer momento no campo social, como outros tantos mundos dentro do mundo.

“Clãs da Lua Alfa” leva esse raciocínio ao extremo — Alfa é uma lua sobre a qual vivem diversas populações, ignorantes de que sua lua era uma antiga base-hospital, um centro de cuidados psiquiátricos.

“Definitivamente deixamos a grande cena do theatrum mundi. O mundo não é mais um espetáculo que se dá em representação, onde cada um desempenha seu papel à maneira de um ator. Tornou-se um asile de loucos, asylum mundi; às tiradas dos atores substituiu-se o delírio dos psiquismos.”