FICÇÃO CIENTÍFICA

David Lapoujade. L’Altération des mondes. Versions de Philip K. Dick. Paris: Éditions de Minuit, 2021

A ficção científica pensa por mundos — criar mundos novos, com leis físicas, condições de vida, formas viventes e organizações políticas diferentes, criar mundos paralelos e inventar passagens entre eles: esta é sua atividade essencial.

A contrapartida é que a ficção científica tem dificuldade em criar personagens singulares como os produz a literatura clássica — nela não se encontram nem Aquiles, nem Lancelot, nem Mrs. Dalloway.

A ciência e a tecnologia são meios — tornados inerentes ao gênero — de propulsionar para mundos distantes ou introduzir num mundo futuro tecnologicamente mais avançado, mas não definem a ficção científica: para falar como Aristóteles, são propriedades da ficção científica, mas não a definem.

O modo como hoje se invoca constantemente a ficção científica a propósito dos progressos tecnológicos, das devastações da Terra e das visões utópicas ou distópicas testemunha um pensamento por mundos, de “efeitos de mundo” provocados pelos fluxos de informações.

Philip K. Dick era consciente da necessidade de criar mundos — “É meu trabalho criar mundos, basicamente um romance após o outro. E devo construí-los de tal forma que não se desmoronem em dois dias” —, mas seus mundos têm a particularidade de desabar muito rapidamente.

A ambição de Dick não parece ser construir mundos, mas mostrar que todos os mundos — inclusive o mundo “real” — são mundos artificiais: ora simples artefato, ora alucinação coletiva, ora manipulação política, ora delírio psicótico.

Se se quiser manter a definição tradicional da ficção científica como exploração das possibilidades futuras, essas possibilidades devem necessariamente ser delirantes — “O autor de ficção científica não percebe apenas possibilidades, mas possibilidades delirantes. Ele nunca se pergunta somente: 'Vejamos o que aconteceria se…' mas 'Meu Deus, e se por acaso…'”

O sujeito delirante habita no centro de um mundo privado do qual ocupa soberanamente o centro — mas o paradoxo apontado pelo psicólogo Louis A. Sass é que sujeitos delirantes admitem a realidade de certos aspectos do mundo exterior mesmo quando entram em contradição com seu delírio.

Dick não era louco, mas sentia-se pessoalmente ameaçado pela loucura — a partir dos anos 1970, confrontou-se com episódios delirantes e alucinatórios de tipo religioso, tendo a “certeza absoluta de se encontrar em Roma algum tempo após o advento de Cristo, na época do Símbolo do Peixe.”

“A guerra dos mundos é ao mesmo tempo uma guerra dos psiquísmos” — não há psiquismo cuja coerência não seja perturbada pela intrusão de outro psiquismo, nem mundo cuja realidade não seja alterada pelas interferências de outro mundo.