FANTÁSTICO

David Lapoujade. L’Altération des mondes. Versions de Philip K. Dick. Paris: Éditions de Minuit, 2021

Dick retoma frequentemente a distinção vigília/sono a partir da distinção heraclitiana entre mundo comum e mundo privado — que utiliza como equivalente da distinção normal/patológico.

A filosofia fingiu por muito tempo sonhar não para duvidar da realidade, mas para assentar a autoridade do julgamento e estabelecer sua superioridade sobre toda outra forma de pensamento.

Mas a “crença primordial” no mundo não suporia ter já distinguido entre os mundos — entre um mundo real, evidente, indubitável e os outros considerados quiméricos, fictícios, irreais?

Esse terceiro estado — que não é necessariamente o do sonho — se reencontra em muitos relatos de Dick, obtido por diversos meios: droga, transtorno psíquico, hipnose, manipulação mental.

No conto “O Retorno do Recalcado”, um motorista preso por excesso de velocidade declara estar doente — “'Tudo me pareceu irreal… Pareceu-me que, se eu dirigisse rápido o suficiente, chegaria enfim a um lugar onde as coisas seriam… substanciais'” — e enfia o braço no painel do carro para demonstrar a falta de substância do mundo.