COISA PENSANTE

David Lapoujade. L’Altération des mondes. Versions de Philip K. Dick. Paris: Éditions de Minuit, 2021

Num universo onde os mundos se sobrepõem e eventos “improváveis” retiram do princípio de causalidade seu valor de princípio, os personagens não podem mais estar seguros de sua identidade — o princípio de identidade (eu = eu) é ameaçado por sua vez.

A alteração ou o desaparecimento do mundo é o sinal de uma profunda desordem psíquica, frequentemente interpretada nos termos da psicanálise junguiana — que inspira Dick muito mais do que a freudiana.

O problema não é mental, mas cerebral — a estrutura bicameral do cérebro é a fonte de toda dissociação, de todo desdobramento.

Dick revem frequentemente a essa cisão dos hemisférios como se a estrutura bicameral do cérebro fosse a fonte de toda dissociação — e não é isso o que lhe aconteceu pessoalmente nos anos 1970, quando a realidade de seu mundo se dissipou para mergulhá-lo no mundo da Roma imperial?

Nos dois romances da Trilogia Divina, “Philip K. Dick” torna-se efetivamente um personagem de romance — e, para se tornar personagem, precisa se desdobrar.

A questão da identidade cede lugar à questão da natureza — não mais “quem sou eu?” mas “o que sou eu?” — quando os personagens, dominados pelo hemisfério esquerdo, perdem a empatia e se tornam criaturas inumanas, andróides.

O princípio de identidade não pode ser mantido em razão de uma falha constitutiva do cérebro, que ameaça constantemente se agravar e se propagar — é dessa falha que nascem todos os delírios em Dick como um esforço de cura obstinado.