CAUSALIDADE

David Lapoujade. L’Altération des mondes. Versions de Philip K. Dick. Paris: Éditions de Minuit, 2021

Se a realidade se decompõe numa pluralidade de mundos divergentes que não cessam de interferir uns com os outros, todas as categorias clássicas que organizam a “realidade” se despedaçam — causalidade, identidade, espaço e tempo estão sujeitos a distorções.

A ficção científica frequentemente se libera do peso da realidade histórica — a maioria das narrativas começa quando a história da humanidade na Terra chegou ao fim, como a célebre psico-história de Asimov no ciclo Fundação.

Para Dick, desfazer-se da realidade presente e passada é inseparável de questionar o princípio de causalidade que a sustenta — “em minha visão de mundo não há lugar para a causalidade tal como se a entende de ordinário, e me lembro de meu dilema, quando descobri, aos 19 anos, que literalmente não via a causalidade ao contrário das outras pessoas.”

A noção de “sincronicidade” — criada pelo físico Pauli e retomada pelo psicanalista Jung, descoberta por Dick na prefácio de Jung à edição inglesa do I Ching — é o operador central de “O Homem do Castelo Alto.”

A sincronicidade não se exerce somente entre diversas partes de um mesmo mundo — exerce-se também entre mundos diferentes, e é isso que torna “O Homem do Castelo Alto” tão complexo.

O princípio de causalidade não pode responder a essas questões — “ele não pode explicar como o que só tem existência eventual pode no entanto agir sobre um estado de coisas dado, fora de toda causalidade.”

No presente, as teorias da informação suplantaram o velho idealismo, mas desempenham o mesmo papel que o I Ching — “substituem à relação de causa e efeito uma relação do tipo emissor/receptor, que se aparenta a uma relação entre psiquismos.”