NO MEIO DO CÉU

Cristina Campo. Gli imperdonabili.

Os portões eram, a princípio, o fim do mundo… e por trás de tudo se revelava algo de infinito. THOMAS TRAHERNE

A velhice, frequentemente esquecida de grande parte da vida passada, recorda com clareza crescente a infância — e, como só pela infância se acede ao reino dos céus, cabe despir-se de todo outro bem em favor dessa única posse.

O velho mais desorientado reveste-se da autoridade de um áugure quando começa a narrar sua infância, exercendo sobre crianças e adultos um poder de fascinação que nenhuma inquietação resiste.

O menino que escuta o velho apresenta uma tensão corporal comparável à dos animais em muda ou dos insetos em metamorfose — ele está crescendo naqueles instantes, bebendo com volúpia e tremor na fonte da memória.

Os objetos que o menino pede ansiosamente para ver estão ao seu alcance, mas parecem-lhe absolutamente distintos das coisas que toca e vê todos os dias.

A criança vive em relação perfeita com os objetos que a cercam — suas mãos apanham a laranja, mergulham na riqueza da pelagem ou da água com a precisão e o prumo de um anjo —, mas ela não o sabe.

A narração mais simples de um velho assume andamento de parábola — e a contadora de fábulas foi sempre a avó, decana da casa, mulher de bom conselho, fosse dama ou camponesa.

O velho desavisado pode ignorar sua qualidade de hierofante velado enquanto narra; o velho avisado a conhece e prefere à história a parábola.

A fábula, figura da viagem, fecha-se geralmente como um anel no mesmo ponto em que começou — o destino alcançado, além dos sete montes e sete mares, é a casa paterna, o parque familiar, o jardim onde cresceram altas ervas.

As Moiras — em figura de mendigos decrépitos ou de bichanos falantes — nunca podem dar como viaticum mais do que três ou quatro normas negativas, que serão pontualmente transgredidas, porque não é possível seguir verdadeiramente normas que estão no lugar de outras normas recônditas.

Todos os planos da existência parecem envolvidos por essa tenaz relação entre infância e morte — Proust é grande testemunha disso, mas talvez seja Pasternak quem revela seu sentido último, ao dizer que os Estudos de Chopin são ensaios para uma teoria da infância e, por isso mesmo, uma preparação pianística para a morte.

Quem nasceu no campo carregará por toda a vida o sentimento de uma linguagem arcana e precisa, de um desdobrar musical de frases que, enquanto preenche os sentidos de sobreabundante alegria, anuncia à mente um último desenho — sempre prometido e diferido.

Basta uma fotografia para que aqueles hieróglifos dourados, aqueles verdes ideogramas de uma presença perfeita — sem trégua pressentida e perdida — reformem seus sinais.

A fábula é uma trama incessante de tais instantes inapreensíveis, fixados em seu máximo de esplendor.

Se um evento essencial para nossa vida — encontro, iluminação — se produz, reconhecemo-lo antes de tudo pela luz de infância e de fábula que o envolve.

Em tais estados, não é raro ser visitado por um sonho — o antigo sonho recorrente, mas profundamente mutado: mais do que um sonho, é agora um precipitado de sonhos, onde cada figura se esclarece em virtude da outra.

A partir desse instante a vida está em jogo; se o que se viveu não se traduzir em atos inspirados, escolhas cada vez mais límpidas e recusas cada vez mais sorridentes, não se será o sábio ancião que se exprime em figuras, desdobrando o tecido dos dias como o manto encantado onde estavam pintados “todos os pássaros e animais e peixes e toda árvore e planta e fruto da terra, toda rocha e raridade e concha do mar e o sol e a lua e as estrelas e os astros e os planetas do firmamento” — e que passava, contudo, facilmente pelo buraco de uma agulha.

A poesia perfeita capta às vezes o momento da balança suspensa, do fio de espada, da ponta de remo em que as antíteses se conciliam.

Ao término do drama japonês o destino se cumpriu, os amantes mortos foram unidos, passou pelo lago a barca em que as sombras das cortesãs cantaram o canto sem par — “como água na água a aparição desaparece.”