SENTIDOS SOBRENATURAIS

Cristina Campo. Gli imperdonabili.

Quem se aproxima dos recintos sagrados pelas vias do século é tomado por duas angústias complementares: o terror de “perder” neles os cinco sentidos e, inversamente, o temor de permanecer carnal demais para esses recintos.

1.

No coração de sua carta aos Romanos, o bispo Inácio de Antioquia — conduzido lentamente a Roma acorrentado a dez leopardos, onde o esperava o anfiteatro — escreveu dois períodos que se cruzam como veia e artéria.

2.

Tudo isso permanecia escrito nos Evangelhos e a Igreja o estreitava e concedia, reproduzindo-o à letra nas imposições de mãos e insuflações de espírito, nas insalivações e administrações de alimento sacramental.

3.

O místico grego Simeão Metafrasto, numa ação de graças após receber as sagradas Espécies, assim orava: “Tu que és fogo que queima os indignos, não me queimes, meu Criador, mas antes passa por todos os meus membros, minhas vísceras, meu coração. Queima as espinhas de todos os meus erros, purifica a alma, santifica os pensamentos, robusteça minhas juntas junto com os ossos, ilumina meus cinco sentidos, prega-me todo com o teu temor… Purifica-me, lava-me, embeleza-me… Faze-me habitação do único Espírito.”

4.

O Padre síriano Isaac formula em poucas frases a regeneração dos sentidos: “Quando, por obra da graça, [uma criatura vivente] adquire os sentidos do homem interior, recebe o leite de uma região colocada fora dos sentidos [naturais]… torna-se criatura visível do reino do Espírito e vem a receber o mundo novo que é o livre do múltiplo.”

5.

O santo é o homem em cuja pessoa parece impossível rastrear o vestígio da ferida originária — “e de fato quem quer que haja tido a ventura de encontrar um santo não lhe será fácil, pelo resto de sua vida, pronunciar sem extrema cautela a palavra beleza.”