ATENÇÃO E POESIA

Cristina Campo. Gli imperdonabili.

A poesia não ajuda a viver senão em virtude da pura beleza, ou seja, da natureza — e os chineses ajudam a viver porque seu universo íntimo se exprime no universo visível: a noite obscura no peso da neve sobre um bambu, no extremo comprimento de uma cauda de faisão.

Proust é o longo poema do mana primitivo, da energia vital elevada a poder mágico — poema de marés: pessoas, lugares, palavras, melodias, primeiro cheios e depois esvaziados desse poder.

Todo o indizível, todas as veias mais inapreensíveis e mais sutis da análise de Proust nascem da síntese e retornam à síntese — seu vasto círculo vai do objeto ao objeto, como o gigante saído da ampola que deve voltar à ampola se quiser servir ao homem.

A obra de Proust é sobretudo uma empresa de altíssima nobreza, uma gesta de cavaleiro andante em defesa de um culto prestes a desaparecer, de um esplêndido e vazio sepulcro.

Outrora o poeta estava lá para nomear as coisas — como pela primeira vez, como no dia da Criação; hoje parece estar lá para despedir-se delas, para lembrá-las aos homens, ternamente, dolorosamente, antes que sejam extintas.

Na poesia, como na relação entre as pessoas, tudo morre no instante em que aflorar a técnica — e a verdadeira educação da mente nunca teve outro fim, desde que o mundo existe, senão a morte da técnica.

As crianças têm órgãos misteriosos de presságio e de correspondência — e a figura poética preexiste à ideia a ser vertida nela.

Ama-se o tempo presente porque é o tempo em que tudo vem a faltar — e talvez por isso mesmo seja o verdadeiro tempo da fábula.

A maturidade é aquele instante misterioso que nenhum homem alcançará antes do tempo, mesmo que todos os mensageiros do céu descessem para ajudá-lo.

As canções de amor de São João da Cruz descrevem as noites obscuras, as subidas ao Carmelo — assim como os narradores de fábulas descrevem as suas; somente os comentários eles omitem, cabendo a nós recompô-los.

Numa relação não imaginária — da qual o jogo das forças esteja excluído —, nenhum sentimento ou pensamento dura isolado, mas cada um se inverte rapidamente em seu oposto.