RELATOS DE UM PEREGRINO RUSSO

Cristina Campo. Gli imperdonabili.

A abertura dos Relatos de um Peregrino Russo — “Por graça de Deus sou homem e cristão, por ações grande pecador, por vocação peregrino da espécie mais miserável, errante de lugar em lugar. Meus bens terrestres são uma alforje nas costas com um pouco de pão seco e, no bolso interno da camisa, a Sagrada Bíblia. Nada mais” — inaugura ao mesmo tempo um grande tratado espiritual, um romance picaresco, um resplandecente poema russo e uma fábula clássica.

O Peregrino russo está resolvido a prosseguir ao infinito diante de si, além das estepes e das florestas, das cidades e das aldeias, para que lhe seja desvelado o sentido de três palavras do apóstolo Paulo: “Orai sem intermissão.”

O relato do Peregrino russo não é senão a crônica de sua estupefata e ébria convivência com a Oração do Nome — a gema portentosa cujo fulgor protege o corpo e ilumina o intelecto, desvela coisas distantes e amansa as feras, vence todos os corações, sacia todas as necessidades e transmuta todas as paisagens.

O Peregrino avança assim, acompanhado pela profunda voz recitante dos 25 Padres antigos que na Filocalia deixaram as iluminações de sua experiência sobre as virtudes da Oração do Nome.

Em torno dessa embriagante história de amor entre o Peregrino e sua Oração, desvela-se e se consteliza sozinho, a cada passo, um multitudinário e maravilhoso mundo que não é diferente, na aparência, do de outro poema metafísico russo — as Almas Mortas de Gógol.

De toda a miraculosa vicissitude, talvez o milagre mais vistoso seja que ela se tenha tornado um relato — com sua continuidade estrutural, seus augustos e inocentes refrões homéricos, sua maestria narrativa concedida em puro sobrémercado à intuição espiritual.

O padre Ireneu Hausherr da Companhia de Jesus escreveu que o Peregrino não é senão “um discípulo fiel de uma doutrina com seiscentos anos: o hesicasmo” — e a Filocalia que o nutre, embora publicada na Rússia em 1782, “não é senão uma coletânea de manuscritos remontando aos tempos de ouro da escola, nos primeiros séculos.”

Resta o enigmático preceito que é a dobradiça sobre a qual gira não apenas o Peregrino mas toda a contemplação bizantina: “descer dentro do próprio coração”, “reconduzir a mente ao coração”, “reconduzir a atenção da mente ao coração” — porque ali dentro habita Deus e ali dentro é preciso encontrá-lo.

A grande estirpe russa dos iurodivi e dos strànniki — os vagabundos e loucos por amor de Deus — tem sua testemunha ocidental em Bento Labre, “aquele gaudioso, terno e inflexível mendigo perenemente errante de lugar em lugar, de Compostela a Bari, de Loreto a Montserrat e de basílica em basílica romana até morrer nos degraus de uma delas.”