Cristina Campo. Gli imperdonabili.
Os mestres cristãos do deserto floresceram, explodiram num instante que durou três séculos — do III ao VI depois de Cristo —, pouco depois que Constantino restituiu aos cristãos o direito de existir, quebrando o dogma de Cômodo “Christianoùs me éinai — os cristãos não sejam”.
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Constantino subtrai com delicadeza a jovem religião do terreno maravilhosamente úmido do martírio, da incomparável maturação das catacumbas.
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Isso significava entregá-la ao mortal perigo que permaneceu tal por dezoito séculos: o acordo com o mundo.
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Enquanto os cristãos de Alexandria, de Constantinopla, de Roma regressavam à normalidade dos dias e dos direitos, alguns ascetas, aterrados por aquele possível acordo, “saíam correndo, afundavam nos desertos de Escete e de Nítria, da Palestina e da Síria.”
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Afundavam no radical silêncio que somente alguns de seus ditos haveriam de sulcar — “bólidos incandescentes num céu insondável.”
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“Na realidade, a maior parte daqueles ditos foi pronunciada para não revelar nada, assim como a vida daqueles homens quis ser toda ela a vida de 'um homem que não existe.'”
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“Dizia-se dos Escetiotes que se alguém surpreendia sua prática, isto é, chegava a conhecê-la, eles não a tinham mais por uma virtude, mas por um pecado.”
Os ditos e feitos dos Padres — lógoi kaì érga, verba et dicta — foram recolhidos em todo tempo com extrema piedade porque eram quase sempre nozes durísimas, inscrustáveis, a carregar consigo a vida inteira, a esmagar entre os dentes, como nas fábulas, no instante do extremo perigo.
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Os Padres recusavam, em sua maioria, categoricamente escrever — foram recolhidos em pergaminhos gregos, coptas, armênios, síriacos.
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Nesses pergaminhos foram perpetuados não só os oráculos e os prodígios dos Padres e de seus discípulos, mas também os de certos incógnitos seculares que praticavam secretamente seus preceitos e, escondidos nas metrópoles que os Padres abominavam, foram às vezes mestres de seus mestres.
Alguns dos Padres foram anacoretas — assim Antônio o Grande, pai de todos os monges, o mestre egípcio que os séculos quiseram venerar como senhor dos animais porque, “retornado à inocência pré-adâmica, encantava as feras.”
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Outros foram anacoretas com momentos de vida comum junto a uma igreja, um forno, um poço; outros ainda, cenobitas em algum mosteiro ou pequena laura de “ofuscantes seixos brancos coagulados entre os penhascos e os abismos.”
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“Em majestosas e esquelérticas montanhas ocuparam cavernas de feras, ou escavaram celas que as faziam assemelhar-se a columbários gigantes: em cada escura boca da pedra um corpo de homem.”
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A fera e o cadáver parecem ter sido seus modelos — “Abba Pastor, grava bem no coração que já estás na tumba há um ano” — ou a fera e o anjo, como em seu único arquétipo: João Batista, aquela criatura inconcebível coberta de pelo hirsuto e com grandes asas pardas, nutrida de gafanhotos e mel.
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“Arsênio sentado à soleira de sua cela, um fino linho sobre o peito para recolher as lágrimas incessantemente fluentes: aquelas lágrimas em que o eu se dissolve como sal em águas vivas; aquelas supremamente misteriosas lágrimas para obter as quais a Igreja romana compôs uma missa votiva.”
Fora de João e de Elias, os Padres do deserto parecem não ter antepassados — sua doutrina parece sair inteira e armada da cabeça de Antônio o Grande e continua imperturbável, imutada, por dezoito séculos, em todo o Oriente cristão.
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“Dos lombos espirituais de Antônio saiu a real progênie dos Padres antigos”: Arsênio o Romano, que fora pedagogo na corte de Bizâncio e, tornando-se monge aos quarenta anos, “ninguém pôde dizer jamais como vivia”; Macário o Grande, Evágrio o Pôntico, Hilarião, Pastor, Alônio, Sisoes, Poemen, Paisio, João o Anão, Moisés o Etíope.
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Desses, multidões de outros — até os mestres do deserto de Gaza do século VI: Serido, Barsanúfio, João, Dositeu — e os sublimes mestres síriacos do século V, Isaac e Efrem.
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Através de Cassiano o Romano passou a lançar os fundamentos da regra patriarcal de Bento de Núrsia e de todo o monacato ocidental.
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Mais tarde, Nicéforo o Solitário e Gregório do Sinai extraíram daí a doutrina e a prática da oração do nome de Jesus — “a puríssima oração ininterrupta que é o coração da Filocalia grega e russa e do romance que edificou um povo inteiro: os Relatos de um Peregrino ao seu Pai Espiritual.”
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“Sobre ela se sustenta ainda hoje o inteiro Monte Atos, com seus anacoretas de quem ninguém conhece o número, os extáticos pássaros aninhados nas grutas a pique sobre o mar de Karouliá.”
Falar dos Padres do deserto não é em realidade menos árduo do que fazê-los falar — “seria necessário, para fazê-lo, ser eles, mas então não se falaria.”
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“Homens maiores do que a verdade, como é sempre maior do que a verdade a Verdade, não podiam erguer-se senão de solidões extremas — nada mais que o 'nu, ardente deserto' poderia contê-los.”
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O teólogo britânico Bryan Houghton anotou: “O que é mais notável nos Padres do deserto é que no deserto eles obstinadamente permanecem. Não se consegue mais alcançá-los. De si mesmos não revelam absolutamente nada. Nem parece importar-lhes muito se alguém consegue interrogá-los. Tão bem sabem que serão eles os últimos a rir. Haviam chegado ao ponto em que o eu havia simplesmente desaparecido. Não havia mais psique à qual pendurar qualquer psicologia… Silêncio, silêncio…”
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“Seus movimentos exteriores são tão escassos e secretos que podemos compará-los somente a pregueamentos geológicos ou lê-los como os grandes movimentos simbólicos dos heróis das Escrituras.”
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É o exílio, a travessia que conta para eles — e que eles vieram ensinar, com seus monossílabos siderais e suas monumentais reticências: “o ser irreversivelmente estrangeiros sobre esta terra, o viver em qualquer lugar, precisamente, 'como um homem que não existe.'”
A única certeza que os Padres do deserto dão de si mesmos é que sua cela é um martyrion — vieram “lutar por todas as mortes”: a morte do corpo, a morte ao homem, a morte da própria mente para “tornar-se constantemente vivos com Deus no silêncio.”
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“O anjo sentado à entrada do sepulcro não se cansa de repetir: 'Aquele que buscais — Antônio, Arsênio, Macário — não está aqui.'”
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É esta a hesychia, a quietude divina ou santa impassibilidade que — “como é razoável” — tornava aqueles homens inamovíveis como de fogo: “seus dedos levantados desprendiam chamas, sua palavra era 'como um golpe de espada', e era bem que durante a oração um discípulo vigiasse à sua porta para que o povo não visse como de fato aquela porta era a boca de uma fornalha.”
Renunciado para sempre a “saber” algo dos Padres e ainda mais a interpretá-los, pode-se contemplar de dito em dito e sobretudo de silêncio em silêncio a doutrina saída toda armada do cérebro de Antônio.
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A sobrenatural dos cinco sentidos é um dos elementos mais luminosos desse ensinamento: “a existência daqueles 'sentidos sobrenaturais' que a hesychia chamou à vida, pelos quais um corpo ainda vivo pode tornar-se algo muito semelhante a um corpo glorioso.”
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“A água na qual alguns Padres se lavaram simplesmente as mãos exorcizava de um noviço tentado o espírito impuro. Mãos que, levantadas, desprendem chamas que é preciso abaixar depressa na oração para não ser arrastado pela êxtase. Corpos sobre os quais uma águia de fogo desce a pique durante a Sinaxe, um lençol de fogo se pousa durante a vestição.”
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Antônio o Grande define de uma vez por todas a relação feroz e feral entre o corpo e a mente humana: “Os demônios não são corpos visíveis, mas nós nos tornamos seus corpos quando aceitamos deles pensamentos tenebrosos. Pois, tendo acolhido tais pensamentos, nós acolhemos os próprios demônios e os tornamos corporalmente manifestos.”
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“Na mente pura e unida Deus pode habitar. Da mente dilacerada, múltipla, Deus quer fugir. É a única razão do cuidado de não pecar, o único verdadeiro motivo da incansável purificação.”
As técnicas dessa purificação são infinitamente variadas e infinitamente contraditórias — mas ao centro sustentam-se sempre “sobre um preliminar e radical reviramento de todas as leis da psicologia natural.”
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“A contenda com os poderes tenebrosos que cercam a mente é vencida invertendo todos os métodos naturais de luta, segundo uma espécie de aikido espiritual no qual as energias agressivas do inimigo são por assim dizer utilizadas em vez de repelidas, seu ímpeto secundado até revertê-lo em seu oposto.”
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“É a santa displicência do Evangelho e daqueles pequenos evangelhos que são as fábulas. 'A quem te pede a túnica, dá também o manto; e a quem te força a andar uma milha, vai com ele por duas.'”
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“Se um homem ou um demônio te acusa, tu dobra a acusação; se um homem ou um demônio te ameaça, tu mostras-te ávido de uma mais tremenda ameaça.”
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“'Ancião, que farás, pois te restam ainda cinquenta anos a viver [e a sofrer]? Muito me afligistes, pois eu me havia preparado para viver duzentos anos.'”
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“Ao maligno quando se manifesta: 'Vem, isso me fará prazer!' E depois de doze anos, vendo-o afastar-se derrotado: 'Por que foges? Fica mais!'”
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“A técnica do koan budista não é de modo algum ignorada por esses terrificantes e dulcíssimos zen cristãos.”
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“Os mistérios inextricavelmente entrelaçados do destino e da providência divina soam em melódicos contrastes nos ditos e feitos dos Padres do deserto: o que é bênção para Sisoes, para Hilarião será proibição e perigo.”
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“'Providência', ensina Antônio, 'é o Verbo de Deus que se cumpre a si mesmo e dá forma à substância que constitui este mundo.' Neste divino tapete é lícito ao homem se entrelaçar com o fio mágico daquele amor que tem o estranho nome de Comunhão dos Santos.”
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Todos os prodígios, todas as conversões, todas as graças das histórias dos Padres são concedidos a alguém “pela pena que se assumiu” alguém mais — e Abba Banê, “abandonada toda obra de caridade corporal pela pura oração, poderá obter 'que a cevada cresça em abundância no mundo inteiro, que sejam remitidos os pecados de toda uma geração.'”
Em torno a esses grandes leões jazentes do espírito, “o mundo das formas, como o da palavra, está quase abolido e portanto mais terrivelmente violento.”
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“Seus objetos heráldicos — o saltério, o cinto de couro, a melote, o cesto de vime, a tigela, os pequenos pães, o sal — aparecem de uma solidão quase ameaçadora, como ossos de dinossauro, na ofuscante luz, na total sombra.”
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“As sentenças são dardos de ponta de ferro que zumbem longamente no ar antes de fincar-se verticalmente no coração do discípulo. Deus precipita a pique nessas celas, nesses corpos, com um único tremendo bater de asas.”
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“O nu, comprimido relato com cláusulas sempre iguais como os poemas de
Homero, de uma audácia psicológica e de uma frugalidade verbal capaz de fazer soar toda a narrativa profana como o vazio farfalhar de canas” — é cada vez o maravilhoso retrato do homem espiritual.
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“Somente na grande prosa russa, que começa com os Relatos de um Peregrino e não está de modo algum esgotada, se transmitiu, através de Bizâncio e da literatura eclesiástica oriental, algo desse estilo.”
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“Em Padre Sérgio, a história de Pai do deserto que Tolstói quis ressuscitar, não há nem o deserto nem a fera nem o anjo — há apenas um heroico, um patético príncipe russo.”
Desses homens, cada um é todos os Padres e nenhum Padre — e precisamente por isso, ainda uma vez, é um irrepetível e inconcebível Pai — e das cem tesseras de ditos e feitos que o concernem, pode-se talvez reconstruir um Arsênio?
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“Arsênio escondido na igreja atrás de uma coluna, 'belo, a barba branca, um corpo magro e bem feito, as pestanas caídas pela abundância das lágrimas'”; Arsênio, ex-preceptor imperial, permanentemente imerso no fedor das folhas apodrecidas “em troca dos perfumes e dos óleos odorosos usados entre as pessoas.”
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“Arsênio que 'havia decidido não escrever nem receber jamais uma carta e em geral não dizer praticamente nunca nada'”; Arsênio “todo em chamas” na oração e assim dilacerado em sua cela por sua “grande aflição e tristeza” que os discípulos se afastaram aterrorizados.
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“Arsênio que suplica, se ouvir dizer que está em algum lugar, que não o procurem; Arsênio que, voltando aos discípulos por ele abandonados por meses, pergunta-lhes por que não partiram para buscá-lo e acrescenta, com suaves lágrimas: 'A pomba não encontrou onde pousar e voltou ao ninho…'”
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“Arsênio moribundo que confessa seu terror e ameaça citar diante do tribunal de Cristo quem tente fazer de seu corpo relíquias.”
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“'E como faremos, Abba? Não sabemos preparar os mortos.' 'Não sereis capazes de amarrar uma corda ao meu pé e me arrastar ao cimo da montanha?'”
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“Qual o poeta soberano o suficiente para saber desenhar tal perfil? Puro o suficiente para inventar aquelas mínimas cenas que literalmente partem o coração, como o choro súbito do ancião doente a quem se oferece vinho: 'Não acreditava que voltaria a saborear vinho antes de morrer…'”
Aquela escola de camponeses celestes — os pintores da Rússia do Norte — viu em visão e projetou na tábua do ícone “a divina infância dos Padres do deserto: infância que trespassa e aterra como a própria Sabedoria, como a inexplicável majestade da inocência animal.”
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O velho anacoreta que “apascentava com os búfalos” foi encontrado uma manhã na rede com eles — “ao vê-lo os caçadores foram tomados de terror. E soltaram o velho que, sem proferir palavra, 'fugiu correndo atrás dos búfalos.'”
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“Assim, dita e pensada deles toda possível coisa, somos forçados a deixar fugir — tocando com a fronte, em silêncio, as suas santas pegadas — cada um desses homens, se a graça o tenha conduzido por um instante a atravessar o nosso deserto.”