PADRES DO DESERTO

Cristina Campo. Gli imperdonabili.

Os mestres cristãos do deserto floresceram, explodiram num instante que durou três séculos — do III ao VI depois de Cristo —, pouco depois que Constantino restituiu aos cristãos o direito de existir, quebrando o dogma de Cômodo “Christianoùs me éinai — os cristãos não sejam”.

Os ditos e feitos dos Padres — lógoi kaì érga, verba et dicta — foram recolhidos em todo tempo com extrema piedade porque eram quase sempre nozes durísimas, inscrustáveis, a carregar consigo a vida inteira, a esmagar entre os dentes, como nas fábulas, no instante do extremo perigo.

Alguns dos Padres foram anacoretas — assim Antônio o Grande, pai de todos os monges, o mestre egípcio que os séculos quiseram venerar como senhor dos animais porque, “retornado à inocência pré-adâmica, encantava as feras.”

Fora de João e de Elias, os Padres do deserto parecem não ter antepassados — sua doutrina parece sair inteira e armada da cabeça de Antônio o Grande e continua imperturbável, imutada, por dezoito séculos, em todo o Oriente cristão.

Falar dos Padres do deserto não é em realidade menos árduo do que fazê-los falar — “seria necessário, para fazê-lo, ser eles, mas então não se falaria.”

A única certeza que os Padres do deserto dão de si mesmos é que sua cela é um martyrion — vieram “lutar por todas as mortes”: a morte do corpo, a morte ao homem, a morte da própria mente para “tornar-se constantemente vivos com Deus no silêncio.”

Renunciado para sempre a “saber” algo dos Padres e ainda mais a interpretá-los, pode-se contemplar de dito em dito e sobretudo de silêncio em silêncio a doutrina saída toda armada do cérebro de Antônio.

As técnicas dessa purificação são infinitamente variadas e infinitamente contraditórias — mas ao centro sustentam-se sempre “sobre um preliminar e radical reviramento de todas as leis da psicologia natural.”

Em torno a esses grandes leões jazentes do espírito, “o mundo das formas, como o da palavra, está quase abolido e portanto mais terrivelmente violento.”

Desses homens, cada um é todos os Padres e nenhum Padre — e precisamente por isso, ainda uma vez, é um irrepetível e inconcebível Pai — e das cem tesseras de ditos e feitos que o concernem, pode-se talvez reconstruir um Arsênio?

Aquela escola de camponeses celestes — os pintores da Rússia do Norte — viu em visão e projetou na tábua do ícone “a divina infância dos Padres do deserto: infância que trespassa e aterra como a própria Sabedoria, como a inexplicável majestade da inocência animal.”