MÍSTICA IRANIANA

Chiara Zamboni, em “Cristina Campo. Il senso preciso delle cose tra visibile e invisibile” (Chiara Zamboni)

“O Tigre Ausência” é apresentado e comentado como um dos textos poéticos mais enigmáticos e esplêndidos de Cristina Campo.

A poesia é para Campo um canto quase religioso — e essa identidade entre poesia e oração é um ponto firme de seu pensamento.

A poesia faz a ponte entre dois mundos — o visível e o invisível —, e Campo distingue entre esses dois mundos como compenetrados, mas radicalmente distintos.

A concepção campiana de poesia como oração ligada à oralidade, ao ritmo e à voz difere profundamente da tradição da oração silenciosa inaugurada por Santo Agostino.

A figura do tapete, presente no ensaio “Tapetes Voadores”, aprofunda a analogia entre poesia e oração no seu relação com o mundo invisível.

Campo identifica a figura do tapete com a mística iraniana, que conhecia especialmente através dos estudos de Henry Corbin em “Corpo espiritual e Terra celeste”.

A primeira analogia entre a tessitura do tapete, a oração litúrgica e a escrita poética fundamenta-se no fato de que o tapete não trata senão do real, tocando as geometrias do espírito apenas em virtude do real.

A segunda analogia mostra que o tapete é ao mesmo tempo lugar de oração e tecedura dos fios que se compõem harmonicamente, iluminados pelo e voltados ao sopro divino.

A mística iraniana forneceu a Campo um substexto de figurações, orientando tanto explícita quanto implicitamente seu pensamento.

A figura do Anjo como guia e meta do percurso é central na mística iraniana e reaparece no pensamento de Campo.

Na tradição mazdaísta, a figura de Daênâ — o arcanjo feminino que guia sendo ela mesma a nossa alma mais pura — ilustra o que acontece quando nos afastamos do caminho.

Esse jogo recíproco entre o Anjo de luz e a singularidade humana tem a qualidade particular que Corbin resume na expressão “luz sobre luz.”

A ligação circular entre infância e velhice adquire significado simbólico à luz da mística iraniana.

A mística iraniana representou para Campo uma matriz de figurações também para a concepção da relação entre os sentidos e o invisível — e para entender essa relação é central aprofundar o que ela escreve sobre a liturgia, a partir das anotações em “Sentidos Sobrenaturais.”

Avicenna descreve dez esferas celestes, a cada uma das quais corresponde um anjo — e é o contato com a Inteligência ativa angelical que permite aos seres humanos intuir as formas intelectuais.

O ponto essencial que aproxima Campo e os filósofos iranianos é a recusa de confundir material e espiritual, meditando sobre uma condição intermediária que mantém as duas polaridades em tensão polar criadora.

A liturgia é para Campo o espaço intermediário em que as duas polaridades — o sensível e o espiritual — se encontram sem se confundir.