LINGUAGEM

Cristina Campo. Gli imperdonabili.

Alguém disse — e não parece fácil contradizê-lo — que daqui a alguns anos as delicadas graduações de linguagem nos diferentes personagens de Proust não parecerão menos enigmáticas do que o Livro dos Mortos egípcio ou as estelas funerárias etruscas.

De um homem de modos patrícios, Frédéric Chopin, foi dito que “nada o aborrecia mais do que ser acreditado pela palavra de seus modos dulcíssimos e de sua cortesia eslava” — lamento todo moderno do homem bem-nascido num mundo já bárbaro.

Regredimos, ao que parece, a uma época de paquidermes dos quais não seria honesto exigir familiaridade com as cristalarias — o understatement ou lítote cortês, e seu alto complemento, a hipérbole nobre tão cara a Shakespeare, tornaram-se incompreensíveis.

De mandarins ainda vivos, na esfera das letras, não se conhece senão Borges — que define sua própria narrativa como “o irresponsável jogo de um tímido que não se decide a escrever contos e que se distraiu em falsificar histórias alheias.”

Divagando, chega-se a perguntar com que sentimentos de frustração indignada um contemporâneo se depararia com a sublime lítote dantesca — chamar a Commedia de comédia porque, após tantos horrores, tem um final feliz.

Na página venerável do encontro entre o Cardeal e o “selvagem senhor”, é sedutora em Manzoni a arte de desaparecer — como historiador — atrás de uma rede de lítotes eloquentes que imperceptivelmente aproximam as duas faces do Janus, recortando simultaneamente os dois altos perfis numa série breve e incandescente de exclamações hiperbólicas.

O Cardeal inaugura o diálogo com o Inominado invertendo os papéis, como se usa somente entre primeiros e iguais — e o fecha “com a maravilhosa impudicícia dos anjos e dos soberanos”: “Um amor por vós que me devora!”

Atrás do admirável casal vem Dom Abôndio, a quem ninguém presta atenção — assim como ninguém prestará mais atenção a Dom Rodrigo assim que a peste lhe fizer saltar a espada das mãos.

Com tal elegância Manzoni conseguiu dissimular as secretas implicações simbólicas dos “Noivos” — “sua construção oblíqua e escorregadia, toda jogos de espelhos, de ecos, de silêncios, toda afirmações por contrário e negações por excesso” — a ponto de convencer o mundo, por cem anos, de ter inaugurado o romance realista, moralizante e apologético.