INVISÍVEL, O QUE ME INTERESSA

Antonietta Potente, em “Cristina Campo. Il senso preciso delle cose tra visibile e invisibile (Chiara Zamboni)

A leitura de uma escritora ou escritor deve ser sempre motivada pela busca do que pode ser útil à vida — não como erudição, mas como possibilidade de encontrar amigas e amigos que ajudem a viver.

Cristina Campo é sentida como uma amiga — próxima e ao mesmo tempo distante —, junto a outra mulher muito cara: María Zambrano, de quem Cristina era amiga muito antes, e que descreveu numa carta de 15 de agosto de 1965 como “sempre próxima, testemunha perfeita com o dedo no lábio.”

Em Campo, o amor pelo invisível não distrai, mas atrai o olhar sobre a realidade, que resplandece graças ao invisível — “Creio pouquíssimo no visível, creio muito no invisível, e é talvez a coisa que mais me interessa”, declarou na única entrevista concedida em sua vida.

Esse amor pela invisibilidade assumido na própria vida se manifesta em primeiro lugar no nome: ela se esconde num nome que não é o de batismo — Vittoria Guerrini —, mas o seu, escolhido desde criança junto a sua dulcíssima amiga, para permanecer ainda mais na invisibilidade, próxima à amiga desaparecida, ou seja, próxima a outra “invisível.”

O segundo aspecto ligado ao invisível é o amor pelas histórias de vida de peregrinos e mendigos que “mudam subitamente de rumo na perseguição de uma visão ignota e frequentemente apenas por causa de uma arcana palavra, pela qual se abandona de golpe a terra amada e todo bem, tornando-se peregrinos e mendigos, abençoados loucos de coração em chamas, de quem o mundo inteiro zomba e que o mundo 'que está atrás do verdadeiro' socorre e guia com maravilhosos sinais e prodígios.”

Nessa mulher refinada, culta e amante da beleza, há um amor particular pelas pessoas ignotas que a visitam e que às vezes hospeda — algumas pobres, mas para ela preciosas.

Campo ensina que ao invisível se chega pela abertura dos sentidos e pela percepção — os cinco sentidos tornam-se cinco portas para fazer entrar o invisível.

Cristina Campo é a mente sábia de que há necessidade — como declara o livro bíblico do Apocalipse (Ap 17,9) —, e lê-la é como atravessar com ela os interstícios mais secretos dos longos dias da vida, tal como ela os narra em suas cartas a Mita, a María Zambrano e a tantos outros amigos.

As relações que Campo tece são acompanhadas por essa percepção, tornando-as de extraordinária beleza e singularidade — “Mas não falemos senão entre nós, e em voz muito baixa.”

Talvez seja esse sentir uma presença sem vê-la que se torna nela seu pungente invisível, tornando-a quase inapreensível — há um deslocamento contínuo, e toda vez que parece possível defini-la como escritora, tradutora, poetisa, ela se desloca novamente.

O mundo das cidades que Campo habitou parece contrariar sua delicada paixão pelo invisível — “Isto não me parece mais uma civilização, não tem mais nada dos caracteres de uma civilização. A civilização se transmite com amor; esta é uma coisa que se destrói com furor.”

A partitura se fecha aqui — não é a de uma sinfonia inteira ou de uma obra, mas simplesmente um movimento; algumas notas que ajudam a compreender um ritmo.