Wanda Tommasi, em “Cristina Campo. Il senso preciso delle cose tra visibile e invisibile (Chiara Zamboni)
Da Fábula
Cristina Campo foi uma leitora apaixonada de fábulas desde a infância, reconhecendo nelas percursos de sabedoria que introduzem pela primeira vez ao significado espiritual dos símbolos.
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O encontro com o pensamento de Simone Weil, no início dos anos 1950, não foi o que orientou Campo para as fábulas como textos sapienciais — essa inclinação era anterior.
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Weil, que também aplicava uma hermenêutica simbólica e espiritual às fábulas, forneceu a Campo o vocabulário conceitual para interpretar seus símbolos.
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Os temas centrais dessa interpretação são: a vitória sobre a lei da necessidade, a irrupção de outro mundo neste mundo, do eterno no tempo, e a presença do invisível no visível.
A proposta de Campo em seus ensaios é sustentar uma dissidência em relação ao jogo das forças e uma incredulidade na onipotência do visível.
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Essa declaração de intenções vale para todos os textos de “Gli imperdonabili”, em especial os dedicados à fábula.
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“A teimosa e inesgotável lição das fábulas é a vitória sobre a lei da necessidade, a passagem constante a uma nova ordem de relações — e absolutamente nada mais, porque absolutamente nada mais há para aprender nesta terra.”
A vitória sobre a lei da necessidade é entendida como recusa ao jogo das forças que normalmente governa as relações humanas, conforme o ensinamento de Simone Weil.
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Segundo Weil, tudo em nós obedece à força, salvo um infinitamente pequeno aberto ao sobrenatural.
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Os protagonistas das fábulas têm a capacidade de “transpor de um salto o jogo das forças”, subtraindo-se ao movimento pendular e inarredável da lei da necessidade.
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Esse movimento pendular faz com que o vencedor de hoje esteja destinado a tornar-se o vencido de amanhã, pois a força nunca pode ser posse estável de ninguém.
Nas fábulas, as transmutações miraculosas parecem contradizer também a necessidade da natureza, regida por leis mecânicas inflexíveis — mas esse aspecto não é particularmente enfatizado por Campo.
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A necessidade natural, em si mesma, não é boa nem má — ao contrário da necessidade ligada à força, que inclina inevitavelmente para o mal.
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Campo alude a esse segundo aspecto da necessidade apenas como indício simbólico de que o herói da fábula pertence a outro mundo, que se insinua neste e subverte suas coordenadas.
A Campo se deve uma das fórmulas simbólicas mais significativas do agir místico, à qual os protagonistas das fábulas invariavelmente se atêm.
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“Qualquer coisa para salvar minha mãe” é a fórmula simbólica que abre a entrada para a quarta dimensão.
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O herói da fábula é equiparado ao místico: como o caminho da fábula “inicia-se sem esperança terrena”, torna-se necessário desde o início fazer alavanca sobre o impossível.
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Isso torna o herói da fábula “um louco para o mundo”, votado à “fé insensata” que proclama uma absoluta “incredulidade na onipotência do visível”.
Campo distingue o esperar neste ou naquele evento do confiar — em Deus ou em um desenho cujos traços nos escapam totalmente.
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O herói da fábula é aquele que “sem esperança confia no inesperável”.
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“Quem confia não conta com eventos particulares porque tem certeza de uma economia que abarca todos os eventos e supera o seu significado, como o tapete simbólico supera as flores e os animais que o compõem.”
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Campo não renega a esperança como virtude teologal, mas a rejeita inteiramente como esperança mundana — somente à primeira pode se juntar o confiar, palavra ligada a confiança e fé.
Ao impossível se chega somente através do impossível — daí derivam as provas de intrepidez e as abstinências dolorosas do coração do herói da fábula.
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O herói da fábula é semelhante ao místico, ao santo e, por sua dedicação inabalável à beleza, ao poeta.
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Fábula e mística compartilham a consciência de que “a iluminação não se alcança — ela virá por si mesma, quando o tempo estiver maduro.”
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Uma anônima beguina respondeu aos mestres da Sorbonne: “Vós buscais, nós encontramos” — opondo a busca ansiosa e infrutífera à capacidade de tornar-se receptáculo da iluminação ou da graça.
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A fábula, como a mística, ensina que é preciso desaprender o buscar e aprender o encontrar.
Campo aproxima a fábula dos Evangelhos — o que diz algo significativo não apenas sobre a fábula, mas também sobre os próprios Evangelhos.
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Os Evangelhos não devem ser entendidos como portadores de uma mensagem moral, mas como um conjunto de parábolas que, como as fábulas, utilizam símbolos concretos para aludir a outro mundo neste mundo.
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Boris Pasternak, escritor muito amado por Campo, escreveu: “Até agora se acreditava que o essencial do Evangelho fossem as máximas e as regras morais — enquanto para mim o principal é que Cristo fala em parábolas tiradas da vida cotidiana, explicando a verdade à luz da existência diária.”
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Tanto as fábulas quanto os Evangelhos não transmitem normas válidas para sempre, mas convidam a ler na própria vida os sinais oferecidos a cada momento.
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“Um vence porque num país de crédulos e intrigantes foi desconfiado e reservado, outro porque se entregou infantilmente ao primeiro que encontrou ou mesmo a um círculo de malfeitores. Nenhuma Escritura oferece preceitos válidos para sempre, ou negaria a vida.”
Nas fábulas intervêm frequentemente as fadas, cujo nome Campo relaciona ao Fatum — destino.
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Aprender a decifrar os símbolos das fábulas equivale a entrever o arabesco do próprio destino, “semelhante ao avesso de um tapete que, somente virado ao direito, mostrará o seu desenho.”
A reflexão sobre a fábula permite a Campo aproximar os dois extremos da vida: a infância, em que nunca se cansa de ouvir histórias, e a velhice, em que os acontecimentos remotos da infância são vividamente recordados.
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Os Evangelhos dizem que “somente pela infância se acede ao reino dos céus” — mas é uma infância cujo sentido último só será captado na velhice, próximo à morte, quando o desenho do próprio destino estiver completo e por fim decifrável.
Uma aventura recorrente nas fábulas é a da viagem — que, embora atravesse florestas sombrias e montanhas inacessíveis, “fecha-se geralmente como um anel no mesmo ponto em que havia começado.”
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A essa viagem que une o início e o fim, a infância, a velhice e a morte, Campo reserva a definição marinheira de um “avançar de retorno.”
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Quando se perde no mar, para reencontrar o rumo é preciso proceder em sentido oposto à direção equivocada — assim como o velho que, contando fábulas a uma criança, rememora a própria infância.
Da literatura mística, da figura da fonte transbordante ou da graça superabundante, Campo extrai a noção de “sobrémercado”, aplicando-a à fábula.
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O ponto de virada decisivo é a iluminação do herói da fábula; o restante — a recompensa, o final feliz — é dado como acréscimo, como um sobrémercado subtraído às trocas comerciais.
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Esse tema marca uma distância sutil de Campo em relação a Weil: enquanto Weil lê as fábulas em chave mística sem se deter particularmente no final feliz, Campo sublinha a dimensão “apostólica” que se realiza na conclusão de muitas fábulas.
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“Terra nova, céus novos em torno de um espírito transformado.”
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Para Weil, o único final feliz das fábulas é a reunião da alma com Deus; para Campo, o sobrémercado alude a uma recompensa que beneficia não só o protagonista, mas também todos os que o acompanharam em sua jornada.
A fábula ensina, segundo Campo, a ascender da simples visão à percepção muito mais penetrante do real.
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“Perceber é reconhecer o que somente tem valor, o que somente existe verdadeiramente. E que outra coisa verdadeiramente existe neste mundo senão o que não é deste mundo?”
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À percepção do invisível se acede por meio da virtude weiliana da atenção — quando, esquecidos de si mesmos, se concede plena realidade ao que é outro de si.
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É preciso aprender, através de duras provas, “a quase mortal felicidade do olhar sem posse.”
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Olhar sem querer comer nem possuir o que se deseja com todas as forças é ensinamento que provém de Weil — a Campo acrescenta, com o próprio termo “percepção”, uma concretude a mais, um envolvimento dos sentidos, quase um tocar o invisível.
Breve Digresso sobre os Sentidos Sobrenaturais
O envolvimento do corpo e dos sentidos no contato com o invisível é uma marca mais campiana do que weiliana, vislumbrada primeiramente nas fábulas.
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Esse tema reaparece em um ensaio posterior de Campo, após sua conversão ao catolicismo e sua aproximação à liturgia ortodoxa: o ensaio sobre os Sentidos Sobrenaturais.
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O que Campo lamenta como perdido após o cristianismo das origens — a estreita relação entre o corpóreo e o espiritual na experiência religiosa — na verdade não está totalmente perdido, ao menos não para ela.
Weil ensinou a Campo o percurso de esvaziamento, a descriação capaz de escavar no ser humano um vazio apto a atrair a graça.
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Para Campo, a de Weil é uma “grande didática espiritual via negationis” — Weil opera negativamente, destruindo tudo o que pode tomar idolatricamente o lugar do verdadeiro Deus.
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Com Weil, estamos na forma côncava, no processo de esvaziamento e descriação; Campo aceita esse fazer vazio, mas enfatiza também a “Forma formante” — Deus — que deverá preencher esse vazio.
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Dessa habitação do divino no humano deriva a transfiguração dos sentidos corporais em sentidos sobrenaturais, capazes de saborear “a maravilhosa carnalidade da vida divina.”
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Weil ensina a Campo como “a aquisição dos sentidos sobrenaturais implica a oblação dos naturais” — mas, além desse processo negativo, para Campo abre-se a dimensão dos sentidos transfigurados, em que “a razão mesma se retira ao seu modesto lugar natural e é antes o corpo que é chamado a reconhecer, saudar, receber o invisível.”
O relato de uma velha russa que, próxima da morte, recusa-se a cortar as unhas “aduncas e monstruosas” porque sem elas não saberia “escalar o monte de Deus” ilustra uma figuração do Reino dos Céus tão concreta que se torna tangível.
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“E a sua alma imortal ela a concebe com as unhas.”
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Sinjavski, que refere esse relato, “saúda naturalmente na velha a verdadeira espiritual”, sem estigmatizar a ingenuidade dessa concepção.
Campo sublinha com força que o espiritual e o corpóreo estão integrados no mistério da encarnação — o divino atravessa e envolve o sensível.
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Segundo a autora, essa verdade, bem presente no cristianismo das origens, está perdida no mundo de hoje, embora restem traços dela no rito bizantino, na devoção popular e nas experiências místicas.
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Essa relação entre corpo e espírito não se perdeu de fato — conservou-se como rio cárstico que corria subterraneamente sob a tendência à mortificação da carne, prevalecida mais tarde sob influências platônicas.
Entre as experiências religiosas que mais conservaram o nexo indissolúvel entre o corpóreo e o espiritual estão a piedade popular e a experiência mística — em ambas houve sempre presença significativa de mulheres.
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Foram sobretudo as mulheres que custodiaram a ideia de “uma alma corpórea.”
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No beijo aos ícones, na veneração de relíquias e nas experiências das místicas, não estamos longe da percepção do invisível que, nas fábulas, é favorecida por talismãs, amuletos e objetos concretos que aludem a outro mundo.
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Na fábula, “uma ordem espontaneamente litúrgica de palavras” dispõe a língua a tornar-se “cruzamento entre o eterno e o tempo” — nesse cruzamento situam-se a liturgia, a sabedoria mística, a devoção popular e a fábula.
Cinderela, Bela e a Fera
No ensaio “Uma Rosa”, Campo reflete sobre o significado espiritual e místico de duas famosas fábulas: Cinderela e Bela e a Fera.
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Em relação a Cinderela, a autora se detém em dois momentos cruciais da história.
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O primeiro é o sentido do limite imposto a Cinderela: ela deve retornar do baile antes da meia-noite, sob pena de ver seus esplêndidos trajes tornarem-se trapos miseráveis.
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“O mistério do tempo e a lei do milagre são indicados nessas poucas palavras com leveza extrema e, todavia, com que resolução. A que pode conduzir a infração de um limite senão à regressão trágica no tempo, ao despertar, pela manhã, sobre as cinzas frias?”
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Em um caminho espiritual, ultrapassar um limite fixado pelas potências celestes indica regressão e culpável renúncia à ascese — tudo se transforma em cinza, todo esplêndido dom se converte em miséria.
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“Cinderela roza, na terceira e mais gloriosa noite do baile, esse precipício — e para desviá-lo, fugindo à louca, não se importa em perder seu sapatinho de cetim.”
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Justamente a perda voluntária de um fragmento dos dons recebidos é o que salva Cinderela.
A segunda observação de Campo sobre Cinderela se detém no tema da perda: renúncia voluntária e sacrifício que permitem um ganho muito maior.
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“Mas eis: será precisamente esse fio, o sapatinho de cetim, a reconduzi-la ao príncipe. Sua perda voluntária tornar-se-á seu ganho.”
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Na mística, a perda e a carência não são sinais de diminuição, mas fontes de ganho: quanto mais nos reconhecemos carentes, tanto mais a graça divina nos é dada em medida superabundante.
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Um trecho evangélico citado por Campo diz: “Quem lançar fora a sua vida, a salvará.”
A fábula de Bela e a Fera merece ser brevemente resumida para que se entenda a interpretação de Campo.
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Um rico mercador tinha três filhas: as duas primeiras eram ambiciosas e ávidas de joias e vestes preciosas; a terceira, Bela, era belíssima, simples e boa de alma.
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Após um naufrágio que arruinou o mercador, Bela pediu apenas uma rosa — desejo impossível em pleno inverno.
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Ao colher a rosa em um jardim encantado, o mercador despertou a ira de um Monstro horrível, que exigiu que Bela fosse morar em seu castelo.
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O Monstro cortejava Bela todas as noites e lhe pedia em casamento, mas ela sempre recusava, apesar de apreciar seus modos gentis.
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Por três vezes Bela se afastou do castelo — para o casamento das irmãs e depois para a morte do pai — e a cada vez o Monstro lhe concedia partir por oito dias.
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Na terceira vez, Bela voltou exatamente no prazo, quando o Monstro estava quase à morte; então ela finalmente aceitou casar-se com ele — e o Monstro se transformou em um belo Príncipe.
Campo interpreta essa fábula como a história da “amorosa reeducação de uma alma”, que se torna capaz de verdadeira atenção — no sentido weiliano — e se eleva da simples visão das aparências à percepção do que verdadeiramente conta.
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“A amizade do Monstro por Bela é uma longa, uma terna, uma crudelíssima luta contra o julgamento segundo a carne.”
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Somente quando de Bela, graças à amorosa reeducação do Monstro, não resta senão “a atenta alma nua”, ela aceita casar-se com o Monstro.
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De sabor weiliano são tanto a atenção quanto a perfeita nudez da alma, que se despega do julgamento segundo a carne, chegando à percepção do invisível.
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Assim como Cinderela se demora perigosamente no baile, Bela também arrisca ser bruscamente devolvida ao passado ao demorar-se demais na casa paterna — “é a ordália de Bela”, mas também “a ordália do Monstro.”
A metamorfose do Monstro em Príncipe ocorre quando o prodígio se tornou supérfluo — quando a metamorfose já se havia cumprido imperceptivelmente em Bela.
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“A metamorfose do Monstro é na realidade a de Bela — e é apenas razoável que agora também o Monstro se torne Príncipe. Razoável, mas não mais necessário. Agora que não são mais dois olhos de carne que veem, a beleza do Príncipe é puro sobrémercado, é a alegria superabundante prometida a quem buscou em primeiro lugar o reino dos céus.”
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“A quem tem será dado”, como está escrito nos Evangelhos, segundo Campo recorda.
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Na interpretação de Campo emergem dois elementos de origem mística: o tema do sobrémercado — a graça superabundante que se derrama sobre a alma que renunciou a tudo — e o tema místico e nupcial do esponsalício da alma com Deus.
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O longo cortejamento insistente do Monstro a Bela corresponde ao bater incessante de Deus à porta da alma — “Não menos — e não menos loucamente — faz Deus por nós: noite após noite, dia após dia.”
A última anotação de Campo diz respeito a Bela — a alma: foi ela quem suscitou seu príncipe, de longe e sem o saber.
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“Foi quando pediu ao pai, em vez de uma joia ou de uma veste suntuosa, aquele seu louco presente: 'uma rosa, só uma rosa', em pleno inverno.”
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Nesse desejo simples, mas impossível, está guardado o mistério da alma que busca a Deus sem o saber.
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Weil influencia decisivamente a interpretação campiana dessa fábula — mas Campo declarou com humildade: “Faço ourivesaria, e seria preciso esculpir a pedra.” Quem esculpiu realmente a pedra, com escrita cortante e essencial, foi Simone Weil; Campo, por sua vez, fez ourivesaria de tal preciosidade que soube entrelaçar no tecido simbólico das fábulas a quintessência da sabedoria mística, dos Evangelhos e da poesia.
Diário Bizantino
O poema “Diário Bizantino” representa, conforme destaca Monica Farnetti entre outras intérpretes, o cumprimento e ao mesmo tempo o resumo de todo o percurso espiritual e estético de Cristina Campo.
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A incomum extensão do poema faz com que o texto seja dividido em quatro partes; a primeira contém transparentes alusões ao mundo da fábula.
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Assim como ao protagonista das fábulas “se pede nada menos do que pertencer simultaneamente, sonambulicamente a dois mundos”, o primeiro verso de “Diário Bizantino”, repetido três vezes, diz: “Dois mundos — e eu venho do outro.”
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Nesse incipit já está anunciada a escolha da autora de radicar-se, como o herói da fábula, no invisível, no outro mundo, reconhecendo-se nas raízes aéreas da árvore invertida, que finca suas raízes no céu.
A primeira estrofe do poema anuncia os temas centrais do percurso espiritual de Campo.
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“Atrás e dentro / as ruas encharcadas / atrás e dentro / névoa e laceração / além do caos e da razão / portas minúsculas e duras cortinas de couro, / mundo oculto ao mundo, compenetrado ao mundo, / inenarravelmente ignoto ao mundo, / pelo sopro divino / um instante suscitado, / pelo sopro divino / imediatamente cancelado, / aguarda a Luz velada, o Sol sepultado, / a portentosa Flor.”
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“Além da razão” alude à sabedoria mística e ao percurso sapiencial traçado nas fábulas, assim como as “portas minúsculas” que se abrem sobre outra dimensão.
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Nessas portas minúsculas conserva-se também a memória da “porta estreita” de origem evangélica, bem como a pequena estatura de quem vive na infância — povoada de fábulas — e as minúsculas passagens que se abrem sobre paisagens encantadas e misteriosas florestas.
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O “mundo oculto ao mundo, compenetrado ao mundo” é o que o protagonista das fábulas deve saber entrever em filigrana a partir deste mundo, a partir dos sinais de um alhures ignoto.
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O subitâneo revelar-se — “um instante suscitado” e “imediatamente cancelado” — do sopro divino é também típico da fábula, especialmente em um tempo em que, perdida toda memória do sagrado, vive-se no deserto de símbolos.
A segunda estrofe de “Diário Bizantino” aprofunda o tema do limiar entre os mundos.
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“A soleira, aqui, não é entre mundo e mundo / nem entre alma e corpo, / é o corte vivo e eficaz / mais afiado que a dupla lâmina / que mergulha / até a separação / da alma veemente do espírito delicado / — enquanto o caroço bem despegado gire dentro da polpa —”
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Esse último verso contém evidente remissão à reflexão de Campo sobre a fábula: “De certos pêssegos se diz em italiano que têm 'a alma solta', o caroço bem destacado da polpa. A destacar-se de modo semelhante o coração da carne — ou, se quisermos, a alma do coração — é chamado o herói da fábula, pois com um coração preso não se entra no impossível.”
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O caroço bem destacado da polpa é figura emblemática do percurso ascético e místico do herói da fábula, que Campo, em “Diário Bizantino”, coloca no início do seu próprio itinerário poético, espiritual e religioso.
Após sua conversão ao cristianismo, Campo relatou nas cartas a Mita — a amiga Margherita Pieracci Harwell — diversos encontros enigmáticos com figuras orantes silenciosas, imersas no silêncio de uma prece muda.
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A amizade entre Campo e Mita estava posta sob o signo da Visitação, como a de Maria a Isabel.
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Nesses encontros fugidios, Campo reencontrou aquela aura fabulosa que havia acompanhado toda a sua infância.
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“Assim, se um evento for essencial para nossa vida — encontro, iluminação — o reconheceremos antes de tudo pela luz de infância e de fábula que o envolve.”
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O ponto de chegada coincide perfeitamente com o de partida, naquele avançar de retorno típico das viagens fabulosas e, às vezes, de um percurso de vida quando este tenha chegado ao seu cumprimento.