FÁBULA, TECEDURA DO INVISÍVEL

Wanda Tommasi, em “Cristina Campo. Il senso preciso delle cose tra visibile e invisibile (Chiara Zamboni)

Da Fábula

Cristina Campo foi uma leitora apaixonada de fábulas desde a infância, reconhecendo nelas percursos de sabedoria que introduzem pela primeira vez ao significado espiritual dos símbolos.

A proposta de Campo em seus ensaios é sustentar uma dissidência em relação ao jogo das forças e uma incredulidade na onipotência do visível.

A vitória sobre a lei da necessidade é entendida como recusa ao jogo das forças que normalmente governa as relações humanas, conforme o ensinamento de Simone Weil.

Nas fábulas, as transmutações miraculosas parecem contradizer também a necessidade da natureza, regida por leis mecânicas inflexíveis — mas esse aspecto não é particularmente enfatizado por Campo.

A Campo se deve uma das fórmulas simbólicas mais significativas do agir místico, à qual os protagonistas das fábulas invariavelmente se atêm.

Campo distingue o esperar neste ou naquele evento do confiar — em Deus ou em um desenho cujos traços nos escapam totalmente.

Ao impossível se chega somente através do impossível — daí derivam as provas de intrepidez e as abstinências dolorosas do coração do herói da fábula.

Campo aproxima a fábula dos Evangelhos — o que diz algo significativo não apenas sobre a fábula, mas também sobre os próprios Evangelhos.

Nas fábulas intervêm frequentemente as fadas, cujo nome Campo relaciona ao Fatum — destino.

A reflexão sobre a fábula permite a Campo aproximar os dois extremos da vida: a infância, em que nunca se cansa de ouvir histórias, e a velhice, em que os acontecimentos remotos da infância são vividamente recordados.

Uma aventura recorrente nas fábulas é a da viagem — que, embora atravesse florestas sombrias e montanhas inacessíveis, “fecha-se geralmente como um anel no mesmo ponto em que havia começado.”

Da literatura mística, da figura da fonte transbordante ou da graça superabundante, Campo extrai a noção de “sobrémercado”, aplicando-a à fábula.

A fábula ensina, segundo Campo, a ascender da simples visão à percepção muito mais penetrante do real.

Breve Digresso sobre os Sentidos Sobrenaturais

O envolvimento do corpo e dos sentidos no contato com o invisível é uma marca mais campiana do que weiliana, vislumbrada primeiramente nas fábulas.

Weil ensinou a Campo o percurso de esvaziamento, a descriação capaz de escavar no ser humano um vazio apto a atrair a graça.

O relato de uma velha russa que, próxima da morte, recusa-se a cortar as unhas “aduncas e monstruosas” porque sem elas não saberia “escalar o monte de Deus” ilustra uma figuração do Reino dos Céus tão concreta que se torna tangível.

Campo sublinha com força que o espiritual e o corpóreo estão integrados no mistério da encarnação — o divino atravessa e envolve o sensível.

Entre as experiências religiosas que mais conservaram o nexo indissolúvel entre o corpóreo e o espiritual estão a piedade popular e a experiência mística — em ambas houve sempre presença significativa de mulheres.

Cinderela, Bela e a Fera

No ensaio “Uma Rosa”, Campo reflete sobre o significado espiritual e místico de duas famosas fábulas: Cinderela e Bela e a Fera.

A segunda observação de Campo sobre Cinderela se detém no tema da perda: renúncia voluntária e sacrifício que permitem um ganho muito maior.

A fábula de Bela e a Fera merece ser brevemente resumida para que se entenda a interpretação de Campo.

Campo interpreta essa fábula como a história da “amorosa reeducação de uma alma”, que se torna capaz de verdadeira atenção — no sentido weiliano — e se eleva da simples visão das aparências à percepção do que verdadeiramente conta.

A metamorfose do Monstro em Príncipe ocorre quando o prodígio se tornou supérfluo — quando a metamorfose já se havia cumprido imperceptivelmente em Bela.

A última anotação de Campo diz respeito a Bela — a alma: foi ela quem suscitou seu príncipe, de longe e sem o saber.

Diário Bizantino

O poema “Diário Bizantino” representa, conforme destaca Monica Farnetti entre outras intérpretes, o cumprimento e ao mesmo tempo o resumo de todo o percurso espiritual e estético de Cristina Campo.

A primeira estrofe do poema anuncia os temas centrais do percurso espiritual de Campo.

A segunda estrofe de “Diário Bizantino” aprofunda o tema do limiar entre os mundos.

Após sua conversão ao cristianismo, Campo relatou nas cartas a Mita — a amiga Margherita Pieracci Harwell — diversos encontros enigmáticos com figuras orantes silenciosas, imersas no silêncio de uma prece muda.