CONTO DE FADAS

Cristina Campo. Gli imperdonabili

O narrador de contos de fadas carrega um mistério singular que transforma a experiência individual em patrimônio coletivo.

Quem cria contos de fadas assemelha-se a quem encontra trevos de quatro folhas, adquirindo, segundo Ernst Jünger, vidência e poderes adivinhatórios.

O grande fabulista trabalha com inúmeras sobreposições geológicas que eleva ao fulgor do mineral perfeito — a ágata irisada, a malaquita profunda cujas veias parecem obra de ourives e não de água e tempo.

A beleza, em sua dimensão imensurável, é o motor da ação no conto de fadas — age-se sempre em nome de uma beleza pura, abstrata, que manifestamente representa outra coisa.

Os heróis e bardos do conto absoluto — o conto dos contos — foram em cada século os Santos, ou personagens arcanos que, em forma de lamento amoroso ou fantasia extravagante, narraram histórias idênticas às das vidas dos Santos.

A saga do bom pequeno Henrique, que por piedade filial sobe a montanha árdua em busca da planta da vida, é uma subida ao Carmelo descrita com sete estações; já a Histoire de Blondine é uma história de expulsão do paraíso e de redenção do pecado original.

O impossível está aberto ao herói de conto de fadas, mas só se chega ao impossível por meio do próprio impossível — palavra que se lê ora da direita para a esquerda, ora da esquerda para a direita, ou montanha com dois versantes igualmente íngremes.

O caminho do conto começa sem esperança terrena, e o impossível é de imediato figurado pela montanha — para apenas resolvê-la a enfrentar, é preciso um sentimento que sirva de ponto arquimediano fora do mundo.

Essa zona mediana do conto — entre a prova e a libertação — é um mundo de espelhos onde bem e mal trocam de máscaras como numa antiga dança de corte.

Com que auxílios passará entre esses fogos e espelhos a criatura mortal — os tratados de ascética e mística responderiam: antes de tudo com a memória do supremo bem para o qual se encaminha.

Esses penhor, frequentemente devidos às boas obras do passado — “o belo passarinho, libertado, gritou ao afastar-se: Fica a dever, Henrique!” —, entram em jogo no instante do perigo extremo.

A lição obstinada e inesgotável dos contos de fadas é a vitória sobre a lei de necessidade, a passagem constante a uma nova ordem de relações — e absolutamente nada mais, porque absolutamente nada mais há a aprender nesta terra.

Como os evangelhos, o conto de fadas é uma agulha de ouro suspensa a um norte oscilante, sempre diferentemente inclinado, como o mastro de um navio em mar onduloso.

Sobre todo conto de fadas pesa o enigma impenetrável e central: a sorte, a eleição, a culpa.

O conto de fadas é, por outro lado, obstinadamente horoscópico — as fadas madrinhas entram uma a uma no batismo da princesa recém-nascida como planetas surgindo no horizonte.

A cena do balo redondo — o que Madame d'Aulnoy chama com termo popular e arcano de branle des fées — é igualmente horoscópica.

Nunca como no conto de fadas as duas direções em que a vida se busca — rumo às suas raízes mais obscuras e rumo ao céu — se mostraram tão deliciosamente e escandalosamente complementares.

Simbad o disse: um conto de fadas opera apenas sobre a matéria-prima da existência — é o mistério do caráter, sejam os humores, os astros ou o legado atávico de outro conto, que até o fim guarda seus traços e só pela repetição dos mesmos erros e pelo sofrimento das mesmas derrotas alcança a metamorfose.

A maturidade é o instante imprevisível, fulminante e conclusivo que nenhum homem tocará antes do tempo, ainda que todos os mensageiros do céu descessem para ajudá-lo.

As crianças possuem, no entanto, órgãos misteriosos de presságio e correspondência — aos seis anos pode-se ler contos o dia inteiro, mas por que esse retorno obstinado e hipnotizado a certas imagens que um dia serão reconhecidas como emblemas recorrentes de uma vida?

Ao tocar o conto de fadas, um escritor dá invariavelmente o melhor de sua língua, tornando-se escritor mesmo que nunca o tenha sido — como se ao contato com símbolos ao mesmo tempo tão totais e particulares, tão excelsos e tangíveis, a palavra só pudesse destilar seu sabor mais puro.

Quatro exemplos de pura criação — de transmutação das espécies por meio da palavra:

A quem vai, nos contos de fadas, a sorte maravilhosa — àquele que sem esperança se confia ao insperável, pois esperar e confiar-se são coisas tão diferentes quanto a espera da fortuna mundana difere da segunda virtude teologal.

A longa fidelidade do louco, de ascética e mística, torna-se ao fim apostólica — ao término de sua descida aos Infernos e de sua subida ao Carmelo o aguarda a medida transbordante, o mundo por acréscimo.