CHEKHOV

Cristina Campo. Gli imperdonabili.

Um psiquiatra silencioso, que lembrava nos modos certos médicos descritos por Anton Tchékhov, costumava aconselhar a seus deprimidos a leitura do livro de Jó — têndo-os em grande estima, como doentes de um olhar demasiado claro, garantia que daquela dura meditação sobre a ordem do mundo saíam serenos.

Tchékhov pertence à veia sutil de poetas que puseram como fundamento de seu edifício uma consciência perfeita da ordem do mundo — das leis de necessidade que nos governam, da irredutível quantidade de mal sobre esta terra.

Como todo espírito livre, Tchékhov tem olhos bem abertos, olhos heroicamente atentos — e é essa presença total, sem evasões e sem repouso, que dá à vasta narrativa tchekhoviana sua unidade de representação, quase de mistério em inúmeros atos.

Esse olhar do alto dá à narração — aparentemente tão nervosa, casual, saltitante — “a plena doçura dos ciclos naturais, e ao mesmo tempo aquele sentimento vertiginoso do tempo pelo qual a existência dos personagens parece se desenrolar com alucinada lentidão e ao mesmo tempo a uma velocidade assustadora.”

Tchékhov assume todos os riscos da atenção — ou melhor, o único risco terrível, o que dá à partida seu alto valor: o risco de uma clarividência que canse a alma confiante, a subtraia às forças misteriosas do fervor, a abandone sem proteção diante da enorme medida de inaceitável que é o núcleo da ordem do mundo.

Tchékhov assume a atenção em sua plenitude e em seu risco mortais — e o percurso de cada um de seus contos é como um novo dia em que o homem que de noite meditou sobre as forças do próprio espírito desce a medi-lo nas proximidades mais ardentes.

A passagem da novela sobre a morte do filho do médico capta exatamente o que Tchékhov opõe à “curiosidade”, ao “desinteresse” literário, à “observação objetiva”:

Tchékhov move-se assim pela cidade terrena, fechada dentro do limite intransponível de seus males — entre as casas todas abertas de um lado e, todavia, guardadas, como o ninho do pato selvagem, por um sinistro acordo de silêncio.

Enfrentar cada dia tais itinerários é coisa de estoicos — e Tchékhov, “delicado como uma moça, gentil como um japonês”, não traz consigo senão dois talismãs: a faculdade de sorrir e a presença da natureza.

Nos últimos grandes contos, a extrema pureza alcançada pelo olhar torna cada vez mais difícil para Tchékhov a absolvição — como no “Conto de um Desconhecido”, onde reduz a três personagens quase arquetípicos dois seres destruídos pela tensão ardente em direção a uma vida sem mentira, e um terceiro pela lama venenosa do egoísmo.

É habitual ao Tchékhov dos últimos contos esconder a própria voz na de um personagem — “e é típico que o escolhido nunca seja o irrecuperável, o cego por ter fechado por demasiado tempo os olhos, mas sempre aquele que conservou inteira ao menos a última liberdade: sofrer conscientemente a distância que o separa do bem.”