BORGES

Cristina Campo. Gli imperdonabili.

Roma, o enorme híbrido, tem de tudo — basílicas abaixo do nível da água, uma pirâmide, jardins suspensos, e um sanatório sobre o qual uma alta torre de ferro queima negro petróleo de uma aurora à outra.

A Porta Mágica, fechada com tijolos vermelhos, não leva mais a nenhum lugar — mas ao longo de sua clara moldura de mármore ainda correm palavras semelhantes a aves negras e brancas que, imóveis sobre as asas, se sustentam no ar entre a terra e o céu.

A praça onde se encontra essa ruína é vizinhíssima da Estação Central — ou seja, num metrópole, um dos mais infetados escoamentos urbanos — e é ela própria uma espiral de círculos.

Aquela praça pode parecer o lugar geométrico por excelência dos que Proust chamou de colecionadores de máscaras do real — “os escritores de aparências, os escritores realistas”: há tudo — “dentes agudos de gato que laceram amarelas vísceras, cheiro de plumagem, sal, humores, misturado ao doentio, virginal dos laticínios, ao aroma um pouco mortuário dos jacintos precoces.”

Naquela praça pitagórico-visceral pensou-se em Borges — no seu gesto de hierofante que repete o do homem figurado, como ele mesmo narra, sobre o mapa gnóstico: um indicador apontado ao céu, outro à terra.

Estrangeiros ainda vêm em peregrinação à Porta Mágica, transcrevem em pequenos cadernos as altas sentenças — e sabem bem que somente da Porta Mágica a praça retira ainda sua virtude e medida.