TAPETE VOADOR

Cristina Campo. Gli imperdonabili.

O “Livro das Noites” transborda de tapetes — tudo nele se passa, por assim dizer, sobre eles: Salomão voa num tapete para a batalha com os gênios rebeldes, enquanto os pássaros rasgam o ar acima dele e as feras marcham abaixo, à sombra daquele tapete; a amante astuta se faz enrolar nele para se introduzir à presença do seu senhor; cadáveres se ocultam em tapetes enrolados; sobre ele se dorme, se ama, se tocam instrumentos harmoniosos — e sobretudo se narra e se ora.

Por que voa o tapete? — essa pergunta introduz o mistério central que o ensaio investiga.

Livros encantadores sobre a arte do tapete revelam a imemorial geografia desse objeto — que é no fundo a geografia das Noites, tecida e narrada pelas mesmas migrações e miscigenações: turcos e gregos, judeus e persas, árabes e ciganos do Egito, sírios, armênios, circassianos, curdos, turcomanos, tártaros, mongóis.

Os “mestres do tapete” — bardos itinerantes do tear — passam de aldeia em aldeia, de região em região, como o antigo narrador de fábulas, dispensando aos artesãos locais os tesouros de sua portentosa memória.

O tapete é uma linguagem — e quem possui sua ciência pode ler um bukara como um resplandecente e sanguíneo poema.

A mente que contempla um tapete pode repousar suavemente sobre essa objetividade subjetiva, como num bosque animado por uma fonte escondida.

Os colores criam a premissa simbólica do tapete, como os antigos modos litúrgicos.

Sobre esse campo poético preliminar se tece o discurso das figuras — a argúcia divina do lagarto, a regeneração espiritual da pinha, a fortuna caprichosa que foge no voo delirante do morcego.

Por sua natureza a poesia transita de forma em forma — e os motivos do tapete se ocultam às vezes um no outro, um atrás do outro, acrosticamente.

Por que voa o tapete? — a pergunta retorna, agora em busca de resposta.

Quatro rios paradisíacos que nascem às vezes da abside de oração dizem que o tapete oriental quer oferecer um espelho da divina frescura de um mundo sem culpa.