HISTÓRIA DA CIDADE DE COBRE

Cristina Campo. Gli imperdonabili.

O “Livro das Mil e Uma Noites” é um labirinto de mil entradas, e seu centro possível — como nos labirintos de outrora era o enigma de um espelho — pode ser a desolada e sibilina lenda da Cidade de Cobre.

Se o centro do labirinto é a Cidade de Cobre, muitas outras noites parecem querer conduzir a esse centro — umas alongando, outras encurtando o caminho.

Da animada companhia do Califa e do Vizir disfarçados, que ligava história a história como a constelação da Ursa, passa-se agora a uma terra de luz invariável e estupefata, onde nenhuma coisa parece mais lançar sombra.

O deserto é quase a única realidade vivida nessa história não só pela alma angustiada, mas pelas narinas, pelos poros, pelas papilas — com uma aspereza arcaica e brutal de lãs e cânhamos, de poeira entre os dentes, de couros queimados pelo suor.

A Cidade nunca é nomeada até que esteja tão próxima a ponto de agir como um ímã sobre a cavalgada festiva que avança com seus brancos estandartes damascenos, dirigida para um destino completamente diferente.

Há até um momento em que a Cidade parece desdobrar-se: já se acredita ter chegado, mas esta não é senão a cidade-vestíbulo, figura e anúncio da verdadeira — assim como o sonho menor o é do grande sonho, e o amor enganoso o é do verdadeiro.

Nas aventuras eróticas das Noites procedia-se da mesma forma — por vielas e praças, armazéns e pátios, até o quarto interior, até o leito ansiado — e também ao centro da Cidade há um quarto e um leito, “e sobre o leito, esplêndida como sol incomparável, uma mulher.”

Somente ao chegar até aqui é que se conhece a futilidade do motivo da viagem — as esferas de Salomão, obtidas ao final, não servirão nem ao Emir Musa nem ao Califa que o enviou buscá-las.

A História da Cidade de Cobre não é senão uma música, uma dança do Eclesiastes — e Salomão, que dominou o cosmos e “interpretava Deus em perfeita veracidade”, soube como ninguém antes dele “a infinita frivolidade do domínio.”

Somente aquele que pôs em movimento toda a máquina da aventura — o cortesão Talib — não retornará a Damasco, pois o labirinto engole quem o percorra por um propósito mundano.

Todas as histórias de Salomão, príncipe do cobre, insistem na qualidade ultramundana de seu poder, que se prolonga além da vida — como o de Hermes Trismegisto, senhor do mercúrio.

A Cidade tem vinte e cinco portas, “mas não se vê nenhuma, nem traço algum” — e esta leitura não é senão uma porta suposta, e a mais óbvia, naturalmente.