A aparência de solidez física não oferece garantia de duração, pois organismos frágeis como os juncos sobrevivem aos carvalhos, e corpos aparentemente frágeis, como o de Gandhi, podem mostrar imensa resistência.
Uma longa coleção de máscaras
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Nasce-se aprisionado, trazendo consigo não só a morte, mas a doença e a sofrimento inscritos na carne antes mesmo da consciência disso.
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Inimigos íntimos e armadilhas originais vêm ao mundo antes da pessoa, incluindo fontes de dores como nevralgias e ciáticas.
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“Nous portons en nous-mêmes non seulement la mort mais la maladie, la souffrance.”
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A própria realidade é ocultada, e a imperfeição, inicialmente insuspeitável, é um segredo inconfessável que se nega a ponto de causar loucura.
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A história das civilizações pode ser vista como uma série de tentativas refinadas para mascarar o verdadeiro rosto humano, tanto de si mesmo quanto dos outros.
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Mantém-se a máscara, escondendo a fragilidade, hesitações, tremores, sofrimentos e medo profundo, tanto individual quanto coletivamente, com o uso de símbolos e desfiles.
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O combate à fragilidade é uma constante, assim como a construção de fachadas brilhantes à maneira das aldeias Potemkin para ocultar a falta de solidez.
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“Nous sommes tous des Potemkine, nous construisons à la hâte, sur le passage de l’impératrice, des façades brillantes pour dissimuler, là-derrière, l’absence de bâti, de solide.”
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Toda aparência de grandeza ou duração é uma ilusão de ótica, e somente o ser vivo comunica a sua ruptura constante, ao contrário do inerte.
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Não se sabe o próprio grau de fragilidade ou resistência, ou seja, até que ponto se pode estender o fio da existência antes de romper, permanecendo o silêncio e a perplexidade sobre isso.
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A fragilidade consubstancial comanda ou dirige o comportamento, como se aprende na infância ao atravessar a rua, sabendo que um objeto como um carro não se quebra nem morre como um humano.
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A fragilidade dos objetos leva-os ao depósito, não à morte, mas um objeto quebradiço, como o vidro, pode ferir gravemente.
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“Le fragile est en danger, mais le fragile est dangereux.”
Morte, onde está a tua derrota?
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Antigamente, a boa morte era aquela recebida na cama, como uma visita esperada, com preparação, presença da família e rituais religiosos.
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O moribundo aceitava sua condição efêmera, perdia as forças gradualmente e, com sorte, mantinha lucidez para entrever o Paraíso ou o Inferno.
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“La belle mort était autrefois celle qu’un moribond recevait dans son lit comme on accueille une visite attendue depuis bien longtemps.”
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A resistência do agonizante no último combate é surpreendente, e dele se diz que é forte ou que luta, tendo a alma ligada ao corpo como por um artesão.
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A agonia é o último combate, sempre perdido, mas que inspira admiração pela força e coragem, guardando-se a memória de uma vitória.
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“L’« agonie » – le mot le dit – est le dernier combat, celui que nous perdons toujours.”
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A morte contemporânea é aseptizada, anônima e ocorre em hospitais, com a consciência apagada por calmantes, sem combate visível, gerando sentimento de impotência e derrota total.
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O último combate é escamoteado, a vida não se defende, e não há nada de heroico ou patético a recordar.
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“Notre mort est aujourd’hui différente. Elle est aseptisée, anonyme, pareille aux autres morts.”
Na defensiva
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O sentimento de fragilidade deriva mais do modo de morrer do que da morte em si, levando a esforços para se proteger e prolongar a existência, ainda que isso aguçe a inquietação.
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Foram criadas vacinas, terapias e check-ups para se blindar contra as surpresas, mas o “grande liquidador” sempre encontra a pessoa sob qualquer disfarce.
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“Depuis plus d’un siècle, nous avons tout fait pour nous préserver des surprises qu’on dit mauvaises. Pour nous cuirasser, pour nous alerter, pour nous défendre.”
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A fortaleza construída contra a morte apresenta fissuras e é assaltada por novas ameaças, como o sida, a obesidade, o terrorismo e o fanatismo, aumentando a angústia de ser aniquilado.
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O sonho incessante de imortalidade, outrora mítico e reservado a heróis, é agora anunciado por pesquisas médicas, o que desloca o mito do tabernáculo para o laboratório e levanta questões práticas sobre financiamento e superpopulação.
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A busca pela imortalidade médica implicaria o fim do nascimento de crianças, criando um mundo imóvel de adultos clonados, enquanto os pobres continuariam a morrer e a nascer, evoluindo lentamente.
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Para se chamar a imortalidade com recursos financeiros, seria preciso renunciar a dar a vida.
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“Les bébés d’aujourd’hui auront à les résoudre.”
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Proclama-se a imortalidade futura, mas os cadáveres se acumulam diariamente nos noticiários, provenientes de novas causas como guerras sagradas, epidemias e vírus, agravando a insegurança e o desamparo atuais.
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“Nous voyons même de nouvelles raisons, de nouvelles manières de mourir.”
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“Aussi pour le moment notre insécurité, loin de disparaître, s’aggrave-t-elle.”
A ascensão da pesantez
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A morte não atinge apenas os velhos, mas ceifa crianças famintas no planeta, enquanto as sociedades ocidentais engordam, criando um contraste entre o excesso e a penúria.
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“Nos jeunes générations s’épaississent, d’une année à l’autre.”
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“D’un côté le surplus, de l’autre la pénurie.”
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A forma feminina oscila entre a anorexia e a obesidade, sendo esta última interpretada por psicólogos como uma defesa contra agressões externas, uma nova carapaça macia em sociedades superalimentadas.
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O comportamento de comer excessivamente, especialmente à noite, é visto como um gesto subversivo e clandestino para apaziguar uma angústia moderna, ignorando-se os milhões de crianças desnutridas.
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“Ces gloutons pensent-ils, à ce moment-là, aux millions d’enfants décharnés qui mangent des brindilles ou sucent de la terre ?”
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“Il y avait là quelque chose de tragique, comme dans La Grande Bouffe, un sacrifice expiatoire.”