Ao abordar o fanatismo e a obediência cega, é
Shakespeare quem vem em auxílio, desta vez com Hamlet.
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Hamlet, após ver o fantasma do pai, jura apagar da memória todos os registros triviais e ditados.
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O personagem exclama: “Teu mandamento apenas viverá / No livro e volume do meu cérebro, / Puro de toda matéria vulgar. Sim, pelo céu!”
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O príncipe Hamlet é descrito como indeciso, frágil e contraditório.
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Apesar de ver e ouvir o espectro do pai, Hamlet logo depois se refere à morte como “a terra desconhecida de onde nenhum viajante retorna”.
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O personagem hesita entre vingança e esquecimento, realidade e sonho, razão e loucura.
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Sua decisão súbita de submissão ao espectro é rapidamente esquecida, retornando às incertezas.
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O juramento de abandono total da cultura, reflexão e razão mostra que todo engajamento definitivo obedece às ordens de um fantasma.
Shakespeare sob nossos olhos
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Uma cena televisionada de Saddam Hussein, trinta anos atrás, ilustra a precariedade de toda posição poderosa.
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Saddam, de terno e gravata, preside uma reunião do partido Baas e anuncia a descoberta de uma conjuração.
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Ele lê nomes de uma lista; os acusados levantam-se, pálidos, e são levados por soldados para execução imediata.
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Os tiros dos pelotões de fuzilamento são ouvidos dentro da sala, e os sobreviventes podem ter formado o pelotão no dia seguinte.
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O arbítrio do regime visa inspirar terror a todos, pois a inocência não existe sob tal sistema.
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Um dos acusados tenta protestar, mas é calado à força e levado para fora.
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Oficiais poderosos, com família e projetos, enfrentam a morte em menos de um minuto.
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Saddam, mais tarde, também teria de defender a própria vida diante de juízes, enquanto todos na sala aplaudem fervorosamente após a lista ser guardada.
Pânico individual em um local público
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No aeroporto de Barcelona, um homem vestido de terno gris fala ao telefone de maneira cada vez mais agitada e nervosa.
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O homem anda de um lado para o outro, sua na testa, fala alto e rápido sobre estruturar algo impossível.
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Ele viola o descanso alheio, parecendo indiferente e literalmente louco, talvez falando sozinho.
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Diferente dos oficiais de Saddam, ele não está ameaçado de morte, mas exibe sua insegurança e desamparo.
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Sua estrutura interna se desloca como uma casa em desabamento, até que ele se afasta gesticulando e desaparece.