Sigmund Freud torna-se o emblema do cientista moderno que, temendo a ambiguidade e a composição entre psique e mundo externo, erige barreiras contra o “sentimento oceânico” e o ocultismo
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No “Inquietante” (1919), Freud estuda a recorrência de signos aparentemente casuais que angustiam e atraem a mente, mas precisa defender sua ciência do perigo da ambiguidade
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A maior ambiguidade seria a hipótese de uma promiscuidade entre a psique e o mundo externo, fazendo com que Freud concebesse como inquietante “todo significado que não tivéssemos estabelecido ou produzido nós”
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Para Freud, as circunstâncias inquietantes seriam reconduzíveis à pulsão de morte, um desejo de se reunir ao estado originário inorgânico
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“O suspeito mais intolerável, para Freud, é que entre o mundo externo e a psique haja uma cumplicidade”
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Freud precisa erigir um baluarte “contra a negra maré de lama […] do ocultismo” (relato de Jung)
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Em “O homem Moisés e a religião monoteísta” (1939), Freud priva os judeus de dois pilares identitários (Moisés e o monoteísmo) e o livro apresenta sintomas da neurose obsessiva (reticências e repetições coatas)
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O recalcado que Freud fazia emergir era Moisés como o pai assassinado, e a especificidade dos judeus seria o “progresso na espiritualidade”: a imposição da rejeição das imagens e da rejeição dos deuses
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“Só assim se podia finalmente estabelecer uma distância de segurança – um verdadeiro cordão sanitário – em relação ao sagrado”
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A maior remoção de Freud em relação à Bíblia é não mencionar a Bíblia dos patriarcas (a história dos judeus antes do nascimento de Moisés)
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O “sentimento oceânico” (Romain Rolland), ou seja, “um sentimento de indissolúvel vínculo, de estreita pertença ao mundo externo no seu conjunto”, é ignorado por Freud, que declara ser totalmente estranho a ele
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“Onde era o Isso, deve subentrar o Eu. É uma obra de civilização, como por exemplo a drenagem do zuiderzee” (frase que
Calasso chama de “lema heráldico” de Freud)