A passagem dos ritos às histórias é consumada com os contos de Far-li-mas (na lenda africana de Naphta), que revelam a essência ritual da literatura e sua capacidade de suspender a condenação à morte
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“Da época de Naphta nada restou a não ser os relatos de Far-li-mas, que ele tinha trazido consigo da terra de além do mar oriental”
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“Xariarad, Far-li-mas: as histórias afastam a morte, mas não a suspendem. Suspendem ao invés a condenação à morte”
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No relato há algo que profundamente se opõe à condenação, que supera o seu lado coativo, foge à faca que se abaixa
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Os contos de Far-li-mas levam o auditório, como só o rito sabe fazer, a uma dimensão outra, permitindo-lhe superar a contingência e descobrir algo de essencial
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“A ruína de Kasch é a origem da literatura”
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“Com Far-li-mas entra-se em outro reino: o reino da palavra, depois do do sangue”
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No Deuteronômio, Moisés asperge o povo com o sangue da aliança, mostrando que o livro, sozinho, não bastava, e o sangue, sozinho, também não; ora era preciso o livro, mas o livro não podia desconectar-se do sangue
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A “cena originária da leitura” é o encontro do “Livro da Lei” (Deuteronômio) no Templo de Iahvè em ruínas durante o reinado de Josias
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“Mais do que os proclames sobre a unicidade de Iahvè, mais do que as execrações dos ‘imundos ídolos’, o que dá o sentido de uma diferença intransponível entre Jerusalém e seus muitos, turbulentos vizinhos é a leitura, o poder dirimente que tinha a leitura de um texto”
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“Ser judeu significou ser bookish” (Simon Schama)
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O ato de ler não fazia parte da teologia, era o seu pressuposto
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“No seu fundo esotérico, o sacrifício pode ceder apenas ao relato, que o vence na ordemálica. O relato é o esotérico do esotérico, o segredo do segredo: ensina a viver fora do ciclo, na suspensão haxixina da palavra”