O equilíbrio psíquico de Warburg, sempre precário, pareceu se romper em 1918, e entre 1920 e 1924 ele viveu em Kreuzlingen, na clínica de Binswanger — lugar histórico da esquizofrenia.
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Warburg confessou a Cassirer que “os demônios, cuja dominação havia tentado explorar na história da humanidade, se vingaram capturando-o”
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Em 1923, Warburg — moderno nymphólēptos — imaginou um katharmós para si mesmo: escreveu em Kreuzlingen a Lecture on serpent ritual e comunicou aos psiquiatras que, se conseguisse ler esse texto diante dos outros pacientes, seria um passo importante para sua cura — o que ocorreu
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Quando em 1939 o Journal of the Warburg Institute publicou a Lecture, uma nota de rodapé informava: “lida pela primeira vez diante de uma unprofessional audience” — e Warburg havia deixado transcrita uma nota: “São estas as confissões de um esquizoide (incurável), depositadas nos arquivos dos psiquiatras”
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Warburg consagrou sua conferência à serpente — o símbolo que, segundo a fórmula de Saxl, serve para “circunscrever um terror informe” — e assim a Ninfa e a serpente, Telpusa e Python, agiram juntas mais uma vez
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Warburg voltou em pensamento a uma viagem ao Novo México feita quase trinta anos antes — sua única experiência primitiva; havia visto em ato o que pode ser o conhecimento por metamorfose, reconhecendo na dança ritual com que os índios Pueblo imitam as antílopes “um ato cultual da mais devota perda de si na transformação em outro ser”
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Warburg refletia sobre a dança em que os índios Moki dançam com serpentes cascavel até tomá-las na boca para evocar a chuva salvadora; na dança a serpente é tratada como “um noviço que se inicia nos mistérios”, tornando-se um “mensageiro” que deve alcançar as almas dos mortos e suscitar o raio — assim a serpente, imagem mais imediata do mal, torna-se o salvador
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Warburg aproximou esse ritual do episódio bíblico de Moisés que, para curar os hebreus torturados pelas “serpentes ardentes”, ergueu uma serpente de bronze numa haste de madeira, por ordem de Javé; no livro dos Números: “Se uma das serpentes mordia um homem e este olhava para a serpente de bronze, ele vivia”
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Esse passo misterioso contradiz brutalmente a condenação bíblica dos ídolos — os eídōla; e foi precisamente esse passo que Warburg, atormentado pelos eídōla, escolheu para se salvar
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Ho trṓsas iásetai — o antigo provérbio grego recomeçava a agir; o que acontecia na sala da clínica de Kreuzlingen não era, em sua essência, diferente do que havia acontecido nas margens do Ilissos quando Sócrates, raptado pelas Ninfas, explicou a Fedro como, através do “justo delírio”, se pode chegar à “libertação” dos males
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Sócrates havia dito, com a rapidez de quem dispara sua última flecha, que “a manía é mais bela que a sōphrosýnē” — mais bela do que o sábio autocontrole, essa intensidade média protegida contra as terríveis pontas, que seria tantas vezes identificada com a própria Grécia por um imenso mal-entendido histórico
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A razão pela qual a manía é mais bela: “porque a manía nasce do deus”, enquanto a sōphrosýnē “nasce junto dos homens”