O Soberano dos Animais é astuto e lascivo — espia as mulheres, persegue as moças ao longo do rio sob a forma de vagalume, e se consegue possuí-las no sonho, elas acordam atordoadas e logo depois morrem de extenuação.
-
O Soberano dos Animais é curioso e ciumento de tudo o que diz respeito ao sexo — espreita pelas fendas do muro e negocia com os caçadores o número de animais que permite matar, pedindo em troca almas de mortos que abriga em grandes cavernas na montanha
-
Os caçadores não se sentem nunca sozinhos — sabem que são vigiados; às vezes param diante da casca de uma árvore e gravam imagens — um verme, uma flauta — para distrair o Soberano dos Animais, que fica absorto diante dessas marcas; então o caçador avança, livre por um momento
-
Havia vários Soberanos dos Animais, que governavam em distintas partes da selva — apresentavam-se como “imagens compostas de humano e de animal, de presa e predador”, semelhantes a vezes a homens emplumados, Papagenos ominosos
-
Se se matavam demasiados animais e as regras não eram observadas, anunciavam sua ira com certas luzes amareladas ao entardecer e um constante fragor de trovões — era indispensável pendurar nas árvores as cabeças dos animais mortos na caça; do contrário o Senhor dos Animais passaria a caçar homens
-
Patakuru contou: “Os animais caçados pelo senhor da selva são os seres humanos. Seu aspecto é como o dos humanos. É como nós […] O senhor macho da selva se deita com as mulheres e com os homens. Porque aparece enganosamente como homem ou como mulher. Ele ou ela aparece como nosso marido ou nossa esposa […] Se nós a possuirmos ou ele nos possuir, somos como mortos. Depois não saberás que foste possuído. Esqueces o que aconteceu, depois morres. Só certos espíritos auxiliares dos xamãs podem descobrir o que aconteceu e nos curar, para que não morramos”
-
Matar implicava um contínuo perigo de represálias — o Soberano dos Animais podia depredar os homens golpeando-os na mente, em pontos precisos e vulneráveis; então avivava a caça, fazendo-se seguir por javalis selvagens e casuares, tal como os homens iam à caça com seus cães — este era o equilíbrio, esta era a lei; por isso não bastava caçar: havia que sacrificar