Kafka jamais havia concebido, para nenhum de seus textos, uma disposição de página e de sequência semelhante — e embora não haja nenhum vestígio, direto ou indireto, de referências feitas por
Kafka à existência desses aforismos, impõe-se o pensamento de que ele tivesse projetado publicá-los de maneira correspondente à forma como os havia disposto naquelas folhas finas.
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Esse pensamento é reforçado pela circunstância de que a quase totalidade dos fragmentos havia sido extraída, às vezes com leves modificações, de dois cadernos em oitavo que
Kafka estava escrevendo naqueles meses — como se tivessem sido retirados de uma certa forma para serem articulados em outra
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Oito aforismos que não aparecem nesses cadernos foram acrescentados por
Kafka posteriormente — plausivelmente no curso do ano 1920 — e separados dos anteriores por um breve traço de pena, mantido nesta edição
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Considerado tal como foi concebido, o manuscrito faz ressaltar o aspecto de unicum que caracteriza os Aforismos de Zürau — de fato inaproximáveis de qualquer precedente, salvo por afinidades ocultas, talvez em primeiro lugar com Hebbel e Kierkegaard, que aliás era uma das leituras de
Kafka naquele período.
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A denominação “aforismos” deve ser entendida como uma vaga aproximação, pois esses fragmentos não respeitam sequer a forma clássica do aforismo — tal como a encontramos igualmente em Kraus ou em Chamfort
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Os fragmentos respeitam essa forma em certo número de casos — 28, 62, 94, 100 — mas dela se afastam bruscamente em muitos outros; o fragmento 47, por exemplo, só pode ser definido como apólogo
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Quanto mais de perto se estudava aquelas folhas finas e suas conexões com os cadernos e as cartas escritas por
Kafka nos meses de Zürau, mais evidente se tornava que esses textos deveriam ser lidos exatamente na forma em que
Kafka os havia disposto — como estilhaços de meteoritos caídos em planícies desertas.
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Ao texto foi acrescentado o capítulo XV de K., que trata não apenas desses aforismos mas de toda a estadia de
Kafka em Zürau e do significado que ela veio a assumir em sua vida.
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Na revisão dessa tradução — que remonta ao período em que K. estava sendo escrito — foi um prazer e um alívio contar com a acribia e a agudeza de Maddalena Buri
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Difíceis de compreender, os Aforismos de Zürau são difíceis de traduzir, inclusive onde se apresentam enganosamente límpidos — o propósito foi o de não atenuar as asperezas nem as estranhezas, que fazem parte do “esplendor velado” desses fragmentos