Blanchot

Maurice Blanchot

[Maurice Blanchot] é muito mais do que uma testemunha da questão [do ser e do neutro]: como observou Foucault, ele a encarna, ele é essa mesma questão. Por isso, ele é mais do que um ator, entre outros, da modernidade; porque leva ao seu ponto de incandescência uma tentação que é a de toda a época, ele é o lugar onde esta, de alguma forma, se reúne. E onde, consequentemente, ela tende a se reconhecer. Mas esse reconhecimento não está isento de perigo. A obra de Blanchot desempenha hoje uma função de espelho — com todas as limitações (os efeitos de circularidade, notadamente) que lhe são indissociáveis. A época não cessa de se contemplar nela: encontra ali o reflexo de suas obsessões, o eco amplificado de seus silêncios, a garantia mais segura de suas frágeis verdades. Por essa razão, ela pode evitar questioná-lo, assim como questionar a si mesma. Não se confirmam um ao outro? “Maurice Blanchot” — ou o que hoje se apresenta sob esse nome — é, assim, nosso memorial vivo, objeto de um consenso tanto mais unânime quanto se formou à margem de qualquer questionamento verdadeiro. O paradoxo é bastante notável: todos admitem de bom grado que Blanchot é muito mais do que um autor de ficção, muito mais também do que um crítico literário. Todos concordam em reconhecer, pelo menos desde L’Entretien infini, que ele tem seu lugar de pleno direito no cenário do pensamento. No entanto, ninguém jamais se empenhou seriamente em discutir o que ele propunha nesse cenário. É certo que, às vezes, tentou-se delimitar o que ele devia a tal ou tal filósofo, mas sem jamais tratá-lo ele próprio como um pensador responsável, ou seja, sem se dedicar a um verdadeiro trabalho de avaliação. Sinal do imenso respeito que ele inspira aos seus contemporâneos? É possível. Mas como não perceber que tal respeito, quando não deixa espaço para nenhum questionamento crítico, é uma homenagem bem ambígua que enterra aquilo que celebra? O que é um pensamento que ninguém julga como tal e ao qual, no entanto, todos se referem, como se o trabalho crítico já tivesse sido realizado, quando na verdade nunca o foi? Tal pensamento é insensivelmente transformado em mito e produz os mesmos efeitos: autoriza-se a partir dele sem nunca o discutir. (Marlène Zarader)