Ponte de Madeira

BLANCHOT, Maurice. L’Entretien infini. Paris: Gallimard, 1969.

Dom Quixote inaugura a era da literatura como extravagância ao se fiar ingenuamente no movimento de narrar

Há uma loucura maior de Cervantes do que a de Dom Quixote

O comentário de um livro que é ele mesmo um comentário de outros livros leva a uma situação de repetição infinita

A palavra do comentário visa repetir a obra, apreendendo nela a repetição que a funda como obra única

A repetição do livro pelo comentário é um movimento que introduz uma nova palavra no vazio da obra, pretendendo preenchê-lo

No tempo da epopeia, o redobramento se realizava no interior da obra pelo modo de composição rapsódica

As obras modernas que seriam seu próprio comentário (como Dom Quixote e O Castelo) tornam difícil ou vão o exercício de outro comentário

O espaço do Livro para Kafka, por sua tradição judaica, é um espaço sagrado, duvidoso, esquecido e de interrogações ilimitadas

Não se pretende propor uma nova interpretação de O Castelo, mas apenas notar dois pontos

O Castelo é constituído por uma série distendida de versões exegéticas sobre a própria possibilidade da exegese

O Castelo detém como seu centro a relação agente e não esclarecida do mais interior e do mais exterior

O vazio (o neutro) não está situado no castelo como lugar inacessível, mas está distribuído igualmente em todo ponto do relato

A soberania no Castelo é neutra, limitando-se a registrar os fatos e os julgamentos com neutralidade e passividade