A multiplicidade de talentos de Samuel Beckett, presente na poesia, no romance, no teatro, na rádio, na televisão, no cinema e no ensaio crítico, conduz paradoxalmente à redução deliberada da produção, ao apagamento das fronteiras entre gêneros e artes e à substituição da ideia de obra pela noção fragmentária.
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Capacidade criadora que atravessa diversos meios artísticos e literários.
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Transformação da abundância de aptidões em economia voluntária de produção.
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Supressão das delimitações tradicionais entre gêneros literários e entre artes distintas.
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Substituição da obra unitária pela forma fragmentária deliberadamente decepcionante.
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Uso de jogos de linguagem que vão do trocadilho simples às construções sintáticas complexas e às singularidades lexicográficas presentes em romances e peças.
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Predominância da intenção de expressar a condição humana, no sentido atribuído por André Malraux, em vez de explorar a desagregação comunicativa associada a Eugène Ionesco.
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Identificação no homem contemporâneo de um ser puramente linguístico cuja existência se constitui e se desfaz pela palavra ou pelo fluxo mental.
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Testemunho sóbrio da tragicomédia de existir no mundo.
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A reputação pessimista da obra de Samuel Beckett convive paradoxalmente com uma intensa força humorística que suscita risos inesperados e revela a vitalidade de uma escrita dominada pelo humor.
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Recepção marcada por reações de riso entre leitores e espectadores diante da tonalidade paradoxal da obra.
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Domínio do humor, compreendido ou não como polidez do desespero.
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Humor frequentemente sarcástico inserido numa empresa literária considerada por Theodor W. Adorno uma das mais significativas do período posterior à catástrofe mundial da Segunda Guerra Mundial.
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Contexto histórico definido pelo pós-Hiroshima e pelo pós-Holocausto.
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Catastrophe como título irônico de um dos dramaticules de Beckett e como motivo recorrente da produção literária e dramática.
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Presença do motivo do “fiasco” como repercussão individual da falência universal.