A tolerância fleumática em relação à dúvida presente nos monólogos de Samuel
Beckett encontra respaldo na visão de Ludwig Wittgenstein sobre a sistematicidade dos processos duvidosos.
A rejeição do ceticismo absoluto não conduz à crença em fundamentos, mas à definição de um campo descritivo autoconsistente.
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Molloy aceita a ignorância e habita um espaço sem fundamentos verdadeiros sustentado por crenças infundadas.
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Anthony Kenny e a personagem Moran convergem na aceitação de paradigmas como proposições empíricas fósseis que orientam a investigação.
A suspensão da suspeita puritana contra a linguagem resulta em um respeito pela sua vitalidade nos trabalhos tardios de Ludwig Wittgenstein e Samuel
Beckett.
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A transição de Murphy para Companhia marca a passagem do nada para o nada renovado.
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A manobra semântica do termo anew oscila entre a afirmação e a negação de si mesmo em uma mudança de aspecto gestaltica.
A prosa tardia de Samuel
Beckett revela que a linguagem mantém companhia mesmo no isolamento através da incorporação beduína das palavras no mundo.
A insinuação da terceira pessoa no texto atua contra o solipsismo ao demonstrar que o solipsista que fala incorre em uma contradição de termos.
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Ludwig Wittgenstein argumenta que a fala pressupõe um ambiente exterior incompatível com o isolamento radical.
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A busca de Belacqua pela ipsissimidade em Dream of Fair to Middling Women é frustrada pela atividade linguística.
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A voz que surge na escuridão em Companhia constitui-se primordialmente como discurso.
A obra Como É antecipa a estrutura de Companhia ao apresentar uma voz que conjura companhia no escuro por meio de memórias e murmúrios de autoria própria.
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O narrador presta atenção a uma história mal inspirada e mal contada.
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A memória da mãe severa vincula a voz ao passado social.
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A narrativa oscila entre o reconhecimento da sociedade e a retratação da imaginação.
O texto Como É culmina em uma polaridade entre teofania extática e solipsismo desolado ao sugerir a existência de uma inteligência compreensiva.
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A necessidade de um meio de escrita e de um entendimento externo é apresentada como uma prova lógica.
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O pressentimento de um demiurgo literário assemelha-se à epifania metaficcional de Krug em Bend Sinister de Vladimir Nabokov.
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A experiência torna-se universal e compartilhada antes de ser reduzida a uma voz única.
A integridade da ficção não é comprometida pela lógica da retratação que caracteriza as figuras de Bom, Pim, Krim e Kram.
A voz anônima que precede a identidade representa a linguagem como portadora do sistema de relações e pano de fundo de todas as suposições.
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A homologia entre a condição de autoria e a condição de fala determina a estrutura narrativa.
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Peter Fifield nota que a afirmação de solidão absoluta é conduzida em uma forma que nega a unidade do narrador sob uma ética da alteridade inspirada em Emmanuel Levinas.
A vacilação entre solipsismo e sociedade nunca se fixa em uma posição definitiva mantendo a pluralidade através de citações.
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O texto Como É constitui um registro de frases proferidas entre aspas terminando no fim da citação.
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A pluralidade impertinente da fala implica a existência de mentes e ouvidos para compreender o jargão antigo.
Ludwig Wittgenstein afirma a impossibilidade de usar a linguagem para sair da linguagem ou para postular estados internos sem uma gramática pública.
Companhia configura-se como um monólogo polivocal que orquestra vozes em diversos registros para interrogar o fracasso da imaginação em aliviar o solipsismo.
O estado de espírito solipsista prescinde do uso do pronome de primeira pessoa na descrição de experiências pessoais conforme as lições de Ludwig Wittgenstein.
O pronome de primeira pessoa é excluído de Companhia em favor de uma voz onisciente que se dirige ao ouvinte na segunda pessoa.
O uso da primeira pessoa singular gera companhia ao abolir a tautologia da notação solipsista e a monopolização do ego.
O termo eu é interpretado como um símbolo de uso prático e não como um designador de pessoa ou lugar na filosofia de Ludwig Wittgenstein.
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O pronome poderia ser descartado na fala prática se não fosse necessário para fins comunicativos.
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A utilização do eu como ponto de partida filosófico é atribuída a René Descartes e criticada como um equívoco gramatical.
O narrador de Companhia falha em convocar seu próprio isolamento ao gerar um mundo habitado sob seu domínio exclusivo.
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A fantasia central da obra reside na ausência de companhia que é desmentida pela inclusão de memórias de pais e amantes.
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A solidão é uma condição autoeleita e comprometida semelhante ao isolamento praticado em Eleutheria.
A linguagem é coextensiva à experiência e os limites do mundo coincidem com os limites da linguagem conforme o Tractatus de Ludwig Wittgenstein.
A recordação da infância no jardim revela que o isolamento da personagem é fruto de um estratagema e não de um ostracismo imposto.
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O isolamento do filho atrás de um arbusto ilustra um padrão de retirada voluntária das relações.
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O medo da imersão social inibe o mergulho na água apesar da disposição para a queda física do topo de um abeto.
O episódio do ouriço em Companhia funciona como uma projeção de autocompaixão e uma demonstração de falsa segurança.
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O abrigo oferecido ao animal resulta em morte por negligência e odor de decomposição.
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O confinamento do ouriço espelha a estratégia do protagonista de controlar interações como cenários de vitimização.
As associações facetas com o Satã de John Milton em Paraíso Perdido apresentam um solipsista que tenta exercer autoridade na escuridão visível.
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A queda e a subsequente desobediência evocam temas de reprovação materna e tentação paterna.
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O narrador deseja comandar todos os elementos da narrativa incluindo a própria impotência através de imperativos impessoais.
A linguagem fornece ao concebedor os meios para estabelecer entidades exteriores prévias inserindo-o em uma rede de relações através de indicadores de segunda e terceira pessoa.
A omissão da primeira pessoa singular não impede a presença do outro cancroso que dissipa a miragem do isolamento solipsista.
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O solipsismo levado a cabo coincide com o realismo puro conforme o Tractatus de Ludwig Wittgenstein.
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Bertrand Russell elucida que o sujeito metafísico é um limite do mundo e não parte dele conforme notas de Dirk Van Hulle e Mark Nixon.
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O outro assegura objetivamente a existência da companhia contra a reclusão da consciência.
As oscilações pronominais são manobras sintáticas que dependem de um mundo antecedente à primeira pessoa conforme demonstra Gottlob Frege.
O reconhecimento da companhia indesejada culmina na segunda trilogia onde a fala habita as sombras e as mãos aleijadas.
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Ludwig Wittgenstein substitui a ênfase de René Descartes no eu pela prioridade do coletivo dentro da própria linguagem.
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O eu é considerado um mistério profundo que não se configura como um objeto nos Diários de 1914-1916.
O ataque de Ludwig Wittgenstein às linguagens privadas refuta a interioridade cartesiana ao estabelecer que a referência é necessariamente pública.
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As palavras seriam ininteligíveis se as sensações fossem puramente privadas e inacessíveis.
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A forma de vida compartilhada coletivamente torna a experiência possível e impede o sentido de qualquer dúvida fundamental.
O acervo de Samuel
Beckett continha diversos textos sobre o argumento da linguagem privada incluindo ensaios de Newton Garver e David Pole.
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David Pole enfatiza que as perplexidades filosóficas surgem de analogias linguísticas falsas entre a experiência e os objetos públicos.
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O dualismo entre mente e corpo é interpretado como um erro derivado da aplicação de uma gramática inadequada à vida mental.
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A linguagem da experiência privada é aprendida em contexto social como parte de um sistema público maior.
A mente é caracterizada como uma metáfora cujo significado reside em seu uso na linguagem tornando o cogito um conceito ocioso e sem trabalho útil.
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Fritz Mauthner refuta o dualismo por considerar que o cisma mental não possui base a priori.
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É insensato imaginar que a vida é um sonho pois tal afirmação exigiria que as próprias palavras tivessem sentido conforme Sobre a Certeza.
O ataque aos critérios epistêmicos da primeira pessoa não erradica a certeza mas a desloca para a terceira pessoa fundamentada em uma imagem do mundo coletiva.
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Roger Scruton observa que a filosofia wittgensteiniana remove o eu do início do conhecimento para devolvê-lo de forma enriquecida ao final.
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A linguagem arbitra entre o verdadeiro e o falso sem necessidade de observação direta.
O deslocamento e a reintegração do eu são pervasivos em Samuel
Beckett apesar da resistência de seus narradores em relação aos outros sem número.
A presença de outros sem número insere o concebedor de Companhia em uma lógica de mutualidade e recepção pronominal.
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É rejeitada a doutrina de Émile Benveniste que define a terceira pessoa como uma não-pessoa sem subjetividade.
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A terceira pessoa é a condição prévia para qualquer afirmação de identidade ou alteridade segundo Ludwig Wittgenstein.
A supremacia da palavra sozinho no encerramento de Companhia é contestada pela própria fábula que depende da materialidade do livro impresso e distribuído.
A pluralidade impertinente da fala constitui fonte de sofrimento para as personagens embora a linguagem permaneça como o único acesso ao real fora das hipóteses de adequação.
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O mau dizer constitui a essência da linguagem ao desafiar a autoridade do dito conforme Alain Badiou.
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As palavras quase ringues e ringues verdadeiros desafiam a inanidade através da persistência verbal.
O pensamento não possui acesso ao obscuro absoluto conforme a leitura que Alain Badiou realiza de Rumo ao Pior.
Samuel
Beckett apresenta uma maturação do programa do Um para o tema do Dois que abre espaço para o infinito e o acaso.
O acesso redentor à alteridade em Companhia abre espaço para o infinito multiplicity do mundo através do amor na interpretação de Alain Badiou.
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Alberto Toscano e Nina Power explicam que o Um solipsista não possui recursos para escapar de si mesmo sem o encontro amoroso.
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Ludwig Wittgenstein contesta a noção de infinito como uma entidade nomeável tratando-a como uma cifra com uso linguístico específico.
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Alain Badiou dirige críticas severas a Wittgenstein classificando-o como um antifilósofo.
Os textos tardios apresentam o outro como uma figura fantasmagórica ou uma simples projeção do eu contrariando as leituras redentoras.
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Graley Herren observa que a promessa de amor funciona apenas como um beco de fuga de volta para a mente.
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Simon Critchley nota a ausência de um heroísmo militante em personagens anti-heroicos rebitados ao solo.
A linguagem patrocina a alteridade em Samuel
Beckett de forma mais decisiva que a mutualidade afetiva conforme se observa no texto Chega.
A posição do sujeito coletivo garantida pela linguagem limita o solipsismo dos narradores embora lhes negue uma voz autenticadora de si mesmos segundo Elizabeth Barry.
A proximidade com a palavra inane reflete uma nova estima pelo meio verbal que ganha expressividade através do rigor e da concentração.
A linguagem de Samuel
Beckett captura os depósitos deixados pelo ser ao encriptar a pluralidade e permitir a brecha na existência.
O pathos do isolamento em Companhia assemelha-se à prostração de Malone ao conceber narrativas para matar o tempo sob o signo do consolo.
Samuel
Beckett segue o caminho wittgensteiniano para superar o impasse de O Inominável onde a linguagem aliena o narrador ao constituí-lo.
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A mutualidade inveterada da fala abole a base ontológica do solipsismo e gera encontros multiplicados.
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Ludwig Wittgenstein afirma que não fala consigo mesmo aquele que fala sozinho na ausência de outrem.