O idealismo de
Baudelaire, incluindo a crença no elo dos dois mundos, deve-se a
Maistre tanto quanto a Swedenborg, Fourier ou
Hoffmann, fontes que apenas confirmam o que
Baudelaire já sabia.
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A arte nasce da ausência do paraíso mas também da lembrança do paraíso, e a sede insaciável pelo além é a prova mais viva da imortalidade da alma.
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As lágrimas provocadas pelo poema esquisito não testemunham excesso de gozo, mas melancolia irritada de uma natureza exilada no imperfeito.
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Os phares, de Delacroix a Goya, provam a dignidade humana não pela excelência formal de suas obras, mas pela presença mesma de suas exigências espirituais.
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O poema e a música traduzem, decifram e exprimem o mistério da vida com obscuridade indispensável, pois os objetos da criação nunca perdem sua atitude misteriosa.
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A imaginação é faculdade quase divina que percebe os relacionamentos íntimos e secretos das coisas, as correspondências e as analogias, mas permanece ligada à sensação e à matéria.
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Existem momentos privilegiados de felicidade e clarividência que não dependem da vontade humana, e a faculdade de vivê-los define em profundidade o romantismo como graça celeste ou infernal.
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A Providência elege arbitrariamente os artistas como elege as nações ou certos indivíduos, atribuindo-lhes uma fatalidade que os distingue dos simples dotados de altas qualidades.
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O pensamento profundo de
Baudelaire não reside nas provocações escandalizantes, mas na afirmação de que o ser humano pode tirar gozos novos e sutis mesmo da dor, da catástrofe e da fatalidade.
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A embriaguez religiosa das grandes cidades resolve a contradição entre solidão e multidão no plano superior do número maistrano, onde as oposições são suplantadas por uma solidariedade que tende à unidade.
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Baudelaire se considerou um eleito da Providência, isto é, uma vítima expiatória, e esse sentimento íntimo e quase inconfessável justifica tanto seus insucessos quanto seu orgulho, bem como o poema Bénédiction que abre intencionalmente as Fleurs du Mal.
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A teoria da pena de morte como aplicação de um meio material a um fim espiritual, herdada das Soirées, vincula-se à ideia de sacrifício voluntário e de santidade passiva da vítima consciente.
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A pena de morte perfeita requer o assentimento e a alegria da vítima, pois só assim o sacrifício salva espiritualmente a sociedade e o culpado.
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O dandy, pela vida que se impõe, oferece-se também em sacrifício propiciatório e expiatório, sendo simultaneamente sacerdote e vítima do espiritualismo que confina à religião.
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A nota elíptica dos Póstumos identifica dandies, teoria do sacrifício e legitimação da pena de morte, exigindo o sponte sua da vítima para a perfeição do sacrifício.
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A prostituição, no vocabulário baudelairiano iluminado por
Maistre, designa o dom consciente de si aos outros, o amor fundado na caridade, e é o fundamento tanto do amor divino quanto da criação artística.
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Deus é o ser mais prostituído por ser o amigo supremo de cada indivíduo e o reservatório comum e inesgotável do amor, sem qualquer intenção blasfematória.
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A simples necessidade de amar responde ao desejo de esquecer o próprio eu na carne exterior, enquanto o artista permanece uno e se prostitui de maneira particular, dando-se conscientemente a todos.
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A santa prostituição da alma nos Les Foules é poesia e caridade, comparável à devoção dos fundadores de colônias, pastores de povos e missionários.
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O grande homem vence sua nação não por humilhá-la, mas por assumir a miséria de todos, e sua glória consiste em permanecer uno enquanto se prostitui, o que define a apoteose do poeta sagrado em L'Imprévu.