O espetáculo que se apresentou era o que outrora feriu os olhos interiores dos Profetas: ministros de religiões diversas todas proclamadas verdadeiras, reis todos consagrados pela Força e pelo Terror, Guerreiros e Grandes se dividindo mutuamente os Povos, Sábios e Ricos acima de uma multidão ruidosa e sofrente que esmagavam ruidosamente sob seus pés — todos acompanhados de seus servidores e mulheres, todos vestidos de ouro, prata e azul, cobertos de pérolas e pedras preciosas arrancadas das entranhas da Terra, roubadas do fundo dos Mares, e pelas quais a Humanidade havia durante longo tempo se empregado, suando e blasfemando — mas essas riquezas e esplendores construídos de sangue foram como velhos farrapos aos olhos dos dois Proscritos.
-
A visão que então se abre é identificada como aquela que outrora atingiu os olhos interiores dos Profetas.
-
Reis, guerreiros, sábios, ricos e ministros religiosos são vistos revestidos de riquezas arrancadas da Terra e do Mar pelo sofrimento humano.
-
Essas riquezas e esplendores, construídos de sangue, aparecem aos dois como velhos farrapos.
-
Wilfrid interrogou por três vezes aqueles que estavam alinhados e imóveis, e ao terceiro chamado todos entreabriram suas vestes e deixaram ver corpos ressecados, roídos por vermes, corrompidos, pulverizados, trabalhados por horríveis doenças.
-
A pergunta de Wilfrid é repetida três vezes: — Que fazeis assim enfileirados e imóveis?
-
Somente à terceira interpelação, com a imposição das mãos, os poderosos respondem revelando seus corpos em decomposição.
-
Wilfrid proclamou que aqueles conduziam as nações à morte, que haviam adulterado a terra, desnaturado a palavra, prostituído a justiça, e que depois de ter comido a erva dos pastos, agora matavam os rebanhos, afirmando que iria avisar seus irmãos capazes de ouvir a Voz, para que pudessem ir se abastecer nas fontes que haviam ocultado.
-
O discurso de Wilfrid é: — Conduzis as nações à morte. Adulterastes a terra, desnaturastes a palavra, prostituístes a justiça. Depois de ter comido a erva dos pastos, matais agora os rebanhos? Acreditais estar justificados mostrando vossas chagas? Vou avisar aqueles de meus irmãos que ainda podem ouvir a Voz, para que possam ir se abastecer nas fontes que escondestes.
-
Minna disse a Wilfrid que deveriam reservar suas forças para orar, pois ele não tinha nem a missão dos Profetas, nem a do Reparador, nem a do Mensageiro, e que, estando ainda apenas nos confins da primeira esfera, deveriam tentar franquear os espaços sobre as asas da oração.
-
Minna estabelece uma distinção entre a missão dos Profetas, a do Reparador e a do Mensageiro, afirmando que Wilfrid não possui nenhuma delas.
-
A fala de Minna é: — Reservemos nossas forças para orar; tu não tens nem a missão dos Profetas, nem a do Reparador, nem a do Mensageiro. Ainda estamos apenas nos confins da primeira esfera, tentemos franquear os espaços sobre as asas da oração.
-
Wilfrid e Minna trocaram entre si palavras de amor e de força, reconhecendo-se mutuamente como o único ser com quem a alegria e a tristeza eram compreensíveis, e se comprometeram a orar e a caminhar juntos, pois conheciam o caminho.
-
O diálogo final entre os dois é: — Tu serás todo o meu amor! / — Tu serás toda a minha força! / — Vimos os Altos Mistérios, somos um para o outro o único ser aqui embaixo com quem a alegria e a tristeza são compreensíveis; oremos, portanto, conhecemos o caminho, caminhemos.
-
Minna pediu a mão de Wilfrid, dizendo que se fossem sempre juntos, a via lhe seria menos rude e menos longa, e ele respondeu que somente com ela poderia atravessar a grande solidão sem se permitir uma queixa.
-
O diálogo é: — Dá-me a mão — disse a Jovem. — Se formos sempre juntos, o caminho me será menos rude e menos longo. / — Contigo somente — respondeu o Homem — poderei atravessar a grande solidão sem me permitir uma queixa.
-
Minna concluiu dizendo que iriam juntos ao Céu.
-
As nuvens vieram e formaram um dossel sombrio, e de repente os dois amantes se encontraram ajoelhados diante de um corpo que o velho David defendia da curiosidade de todos e que quis sepultar ele mesmo.
-
Lá fora, eclodia em sua magnificência o primeiro verão do século dezenove, e os dois amantes creram ouvir uma voz nos raios do sol, respiraram um espírito celeste nas flores novas e se disseram de mãos dadas: “O imenso mar que reluz lá embaixo é uma imagem do que vimos lá em cima.”
-
O senhor Becker perguntou a Wilfrid e Minna para onde iam, e eles responderam que queriam ir a Deus, convidando-o a vir com eles.
-
Becker é o pai de Minna, personagem que representa a racionalidade e o mundo terrestre ordinário.
-
O diálogo final é: — Para onde vão? — Queremos ir a Deus — disseram eles. — Venha conosco, meu pai?