====== Tema do drama ====== //[[.:start|YEATS, W. B.]] The collected works of W.B. Yeats IV. New York: Macmillan, 1989.// Li essa frase há alguns dias, ou algo semelhante, em um obituário de Ibsen: “Que ninguém volte mais ao antigo repertório de baladas de Shakespeare, aos assassinatos e fantasmas, pois o que nos interessa no palco é a experiência moderna e a discussão de nossos interesses”; e, em outra parte do artigo, Ibsen foi criticado por ter escrito sobre suicídios e, de outras formas, ter feito uso do “terror mórbido da morte”. A literatura dramática há muito tempo vem sendo deixada à mercê da crítica dos jornalistas, e todos eles, os antigos e estúpidos e os novos e espertos, tentaram imprimir nela sua absorção pela vida do momento, seu deleite pela originalidade óbvia e pela lógica óbvia, seu recuo diante do antigo e do insolúvel. O escritor que citei é muito mais do que um jornalista, mas viveu a vida apressada deles e, instintivamente, recorre a eles para obter um julgamento. Ele não está pensando nos grandes poetas e pintores, na nuvem de testemunhas, que estão lá para que possamos nos tornar, por meio da compreensão de suas mentes, espectadores das eras, mas desta era. O drama é um meio de expressão, não um tema específico, e o dramaturgo é tão livre para escolher o que lhe apetece quanto o poeta de Endymion ou o pintor de Maria Madalena à porta de Simão, o fariseu. Longe de ser a discussão de nossos interesses e as circunstâncias imediatas de nossa vida o que mais comove a imaginação, é o que é antigo e distante que nos emociona mais profundamente. Há uma frase em O Casamento do Céu e do Inferno que não faz sentido até que compreendamos o sistema de correspondências de Blake. “O melhor vinho é o mais velho, a melhor água a mais nova.” A água é a experiência, a sensação imediata, e o vinho é a emoção; e é com o intelecto, distinguido da imaginação, que ampliamos os limites da experiência e a separamos de tudo, exceto de si mesma, da ilusão, da memória, e criamos, entre outras coisas, a ciência e o bom jornalismo. A emoção, por outro lado, torna-se inebriante e deliciosa depois de ter sido enriquecida com a memória de emoções antigas, com todos os inúmeros sabores da experiência passada; e é necessariamente alguma antiguidade de pensamento, emoções que foram aprofundadas pelas experiências de muitos homens de gênio, que distingue o homem culto. O tema de sua meditação e invenção é antigo, e ele desprezará uma originalidade excessivamente consciente nas artes, assim como nas questões da vida cotidiana, onde, não é Balzac quem diz: “somos todos conservadores”? Ele é, acima de tudo, bem-educado, e, quer escreva ou pinte, não desejará uma técnica que negue ou imponha sua longa e nobre descendência. Corneille e Racine não negaram seus mestres, e quando Dante falou de seu mestre Virgílio, não houve o canto do galo. Em sua época, a imitação era consciente ou quase consciente, e como a originalidade era tanto mais parte do próprio homem, tanto mais profunda por ser inconsciente, nenhuma análise rápida poderia desvendar seu milagre, que precisou de gerações, talvez, para ser compreendido; mas é a nossa imitação que é inconsciente e que aguarda as certezas do tempo. Quanto mais religioso for o tema de uma arte, mais ela será, por assim dizer, estática, e mais antiga será a emoção que desperta e a circunstância que evoca diante de nossos olhos. Quando, na Idade Média, o peregrino a caminho do Purgatório de São Patrício se encontrava à beira do lago, encontrava um barco feito de um tronco oco para levá-lo até a caverna da visão. Na pintura e na poesia religiosas, coroas e espadas de um padrão antigo assumem novos significados, e é impossível separar nossa ideia do que é nobre de uma escadaria mística, onde não homens e mulheres, mas vestes, joias, incidentes, utilidades antigas flutuam lentamente para cima sobre a mente quase adormecida, revestindo-se de vida emocional e espiritual à medida que ascendem até serem engolidas por alguma glória distante que eram até mesmo modernas e momentâneas demais para suportar. Toda arte é sonho, e o que o dia já deixou para trás é o sonho maduro, e o que a arte moldou a religião aceita, e no fim tudo está na taça de vinho, tudo está na fantasia embriagada, e as uvas começam a gaguejar.