====== Masui ====== //MASUI, Jacques. Cheminements. Paris: Fayard, 1978.// Jacques Masui dizia, em uma nota datada de 16 de maio de 1941: «Se me perguntassem por que não escrevo uma obra, um estudo qualquer, por que não me dedico finalmente a um trabalho importante que meus supostos “conhecimentos” ou minha “experiência” justificariam, eu só poderia responder uma coisa: estou ocupado demais vivendo (...). Quando digo ‘ocupado vivendo’, quero dizer: ocupado demais me realizando, me compreendendo, captando a vida e o universo ‘de um único olhar’.” Um fragmento posterior, sem data, vem confirmar essa perspectiva: «Ele conduziu esses estudos para si mesmo, a fim de sair deles, de encontrar um equilíbrio real numa humanidade que cada vez mais carece dele. Aliás, por ser preguiçoso demais para dar forma ao resultado de suas pesquisas, sempre preferiu aplicá-las à sua vida — vivê-la, em vez de divulgá-las pela palavra». Daí essas linhas dispersas, traçadas às vezes às pressas, nunca revisadas, em cadernos, pedaços de papel, ao longo dos anos. Sem dúvida, no fundo, a nostalgia de um texto contínuo, construído; a relação também, acariciada, do que se poderia chamar de viagem iniciática (preocupação com a “geografia sagrada”, os ensinamentos, os encontros, etc.), mas sempre com recuos, hesitações, dúvidas sobre o valor do escrito (o Tch’an não pôde deixar de fortalecer nele esse movimento). Daí, no entanto, o valor dessas notas, cujas próprias imperfeições são garantia de uma sinceridade muito estimável em um mundo fraudulento (Masui havia anotado, como epígrafe, esta frase de Daumal: “Escrever é um exercício muito sério e cheio de riscos; dizer o que conheço, nem mais, nem menos.” Convém, portanto, ler Masui não como um escritor com pretensões estéticas, mas sim como alguém que pode nos ajudar a nos reorientar. Que importa, então, que os “efeitos” estejam ausentes, se o efeito se manifesta. Estamos aqui na presença de um homem que busca sua verdade, sua verdade de vida, com uma obstinação que não o abandonará. Vê-se, aliás, bem, a partir dos anos 60 aproximadamente, delinear-se uma curva, uma afirmação de si cada vez maior, uma fé, como ele dizia. Sem falar das poucas experiências fundamentais que o mergulham nessa “Energia desconhecida que conduz tudo”. Não nos esqueçamos também de sua paixão pela descoberta e de sua necessidade de comunicação, que levaram Masui a publicar em suas coleções textos importantes e instrutivos, cujo interesse suscitado junto ao público pudemos avaliar. Talvez fosse essa, segundo suas próprias palavras, “a tarefa específica que nos foi confiada” e que ele, por sua vez, soube levar a bom termo.