====== Homero ====== //Werner Jaeger. Paideia.// ** Platão relata que, em sua época, era amplamente difundida a opinião de que Homero havia sido o educador de toda a Grécia. ** * Desde então, a influência de Homero se estendeu muito além dos limites da Hélade, enquanto a crítica filosófica apaixonada de Platão, ao tentar limitar o influxo e a validade pedagógica de toda poesia, não conseguiu abalar seu domínio. * A concepção do poeta como educador de seu povo, no sentido mais amplo e profundo, foi familiar desde a origem e manteve constantemente sua importância, sendo Homero o exemplo mais notável e, por assim dizer, sua manifestação clássica. * Procede-se bem em tomar esta concepção do modo mais sério possível e em não estreitar a compreensão da poesia grega substituindo o julgamento próprio dos gregos pelo dogma moderno da autonomia puramente estética da arte. * É característico do pensamento grego primitivo o fato de que a estética não se acha separada da ética, enquanto o processo de sua separação aparece relativamente tarde. * Para Platão, a limitação do conteúdo de verdade da poesia homérica leva imediatamente consigo uma diminuição de seu valor, ao passo que a antiga retórica fomentou a consideração formal do arte e o cristianismo converteu a valoração puramente estética da poesia em uma atitude espiritual predominante. * Desde que o cristianismo tornou possível rejeitar o conteúdo ético e religioso dos antigos poetas como errôneo e ímpio, reconhecendo ao mesmo tempo a forma clássica como instrumento de educação e fonte de gozo, a poesia não deixou de evocar e conjurar de seu mundo de sombras os deuses e heróis da mitologia pagã. * É fácil considerar Homero desde esta estreita perspectiva, mas com isso se impede o acesso à inteligência dos mitos e da poesia em seu verdadeiro sentido helênico, embora repugne ver como a poética filosófica tardia do helenismo interpreta a educação de Homero como uma fábula docet racionalista. * A quimera da escolástica é apenas a degeneração de um pensamento em si mesmo justo que, como tudo o que é belo e verdadeiro, se torna grosseiro em mãos rudes, e não deixa de ser evidente que Homero deve ser considerado como o primeiro e o mais grande criador e formador da humanidade grega. ** Se impõem aqui algumas observações sobre a ação educadora da poesia grega em geral e, de um modo muito particular, da de Homero. ** * A poesia só pode exercer esta ação se põe em vigor todas as forças estéticas e éticas do homem, mas a relação entre o aspecto ético e estético não consiste apenas no fato de que o ético seja dado como uma matéria acidental. * A forma normativa e a forma artística da obra de arte se acham em uma ação recíproca e têm, no mais íntimo, uma raiz comum, mostrando-se como o estilo, a composição e a forma, em seu sentido específico estético, são condicionados e inspirados pela figura espiritual que encarnam. * Existe e tem existido em todo tempo uma arte que prescinde dos problemas centrais do homem e deve ser entendida só de acordo com sua ideia formal, existindo até mesmo uma arte que zomba dos chamados assuntos elevados ou permanece indiferente diante dos conteúdos e objetos. * A frivolidade artística deliberada tem, por sua vez, efeitos éticos, pois desmascara sem consideração os valores falsos e convencionais e atua como uma crítica purificadora, mas só pode ser propriamente educadora uma poesia cujas raízes penetrem nas camadas mais profundas do ser humano. * A poesia grega, em suas formas mais altas, não oferece simplesmente um fragmento qualquer da realidade, mas um esboço da existência escolhido e considerado em relação a um ideal determinado, enquanto os valores mais altos adquirem, mediante sua expressão artística, o significado permanente e a força emocional capazes de mover os homens. * O arte tem um poder ilimitado de conversão espiritual, que os gregos denominaram psicagogia, possuindo ao mesmo tempo a validade universal e a plenitude imediata e vivaz que constituem as condições mais importantes da ação educadora. * Mediante a união da validade universal e da plenitude vivaz, o arte supera ao mesmo tempo a vida real e a reflexão filosófica, pois a vida possui plenitude de sentido, mas suas experiências carecem de valor universal, enquanto a filosofia e a reflexão alcançam a universalidade, mas atuam apenas sobre aqueles para os quais seus pensamentos adquirem a intensidade do vivido pessoalmente. * A poesia sobrepuja a todo ensinamento intelectual e a toda verdade racional, mas também às meras experiências acidentais da vida individual, sendo mais filosófica que a vida real e, ao mesmo tempo, por sua concentrada realidade espiritual, mais vital que o conhecimento filosófico. ** Estas considerações não são, em modo algum, válidas para a poesia de todas as épocas, nem tão somente, sem exceção, para a dos gregos. ** * As considerações afetam a poesia grega mais do que a qualquer outra e dela derivam no fundamental, reproduzindo os pontos de vista a que chegou o sentimento artístico grego ao ser elaborado filosoficamente em tempos de Platão e Aristóteles. * A concepção do arte dos gregos permaneceu idêntica em tempos posteriores, a despeito de algumas variações no detalhe, e é necessário perguntar por sua validez nos tempos de Homero, época em que existia um sentido mais vivo da poesia. * Em tempo algum aqueles ideais alcançaram uma validez tão ampla sobre a forma artística e sua ação na formação da posteridade como nos poemas homéricos, pois na epopeia se manifesta a peculiaridade da educação helênica como em nenhum outro poema. * Nenhum outro povo criou por si mesmo formas de espírito paralelas à maioria das formas da literatura grega posterior, das quais vêm a tragédia, a comédia, o tratado filosófico, o diálogo, a história crítica, a biografia e a oratória, entre outras. * Encontram-se em outros povos, no mesmo estágio de desenvolvimento, uma organização social das classes, um ideal aristocrático do homem e um arte popular análogos aos dos gregos primitivos, e dos cantos heroicos surgiu uma epopeia entre os indianos, os germanos, os povos românicos, os finlandeses e alguns povos nômades da Ásia central. * As vigorosas similitudes de todos esses poemas, nascidos do mesmo grau de desenvolvimento antropológico, têm sido observadas com frequência, mas a semelhança da poesia heroica helênica mais antiga com a de outros povos se refere apenas a caracteres exteriores condicionados pelo tempo. * Nenhuma épica de nenhum povo cunhou de modo tão completo e alto aquilo que há de imperecível no estágio heroico da existência humana nem seu sentido universal do destino e da verdade perdurável sobre a vida, e nem mesmo poemas como os dos povos germânicos podem ser comparados, pela amplitude e permanência da ação, com os de Homero. * A diferença entre a significação histórica de Homero na vida de seu povo e a da épica medieval se manifesta pelo fato de que a influência de Homero se estendeu sem interrupção por mais de mil anos, enquanto a épica medieval cortesã foi logo esquecida. * A força vital da épica homérica produziu ainda na época helenística uma nova ciência, a filologia, consagrada à investigação de sua tradição e forma originária, ao passo que os manuscritos empoeirados da épica medieval dormitavam nas bibliotecas e foi necessário que uma erudição preexistente os redescobrisse. * A Divina Comédia de Dante é o único poema épico da Idade Média que alcançou um lugar análogo ao de Homero, elevando-se, pela profundidade e universalidade de sua concepção do homem e da existência, a uma altura que só alcança o espírito inglês em Shakespeare e o alemão em Goethe. * Os estágios primitivos da expressão poética de um povo são condicionados de modo mais vigoroso pelas particularidades nacionais, e a inteligência de sua peculiaridade por outros povos é necessariamente limitada, mas a poesia enraizada no solo se eleva à validade universal quando alcança o mais alto grau de universalidade humana. * O fato de Homero, o primeiro que entra na história da poesia grega, ter se convertido no mestre da humanidade inteira demonstra a capacidade única do povo grego para chegar ao conhecimento e à formulação daquilo que a todos une e a todos move.